A vitória de Peter Magyar nas eleições parlamentares húngaras em 12 de abril representou mais do que apenas a raiva contra a corrupção em alto nível e as dificuldades econômicas. Foi também uma rejeição à “democracia iliberal” de Viktor Orbán, um afastamento de sua aproximação com o mainstream europeu e um alerta contra a proximidade com a órbita de Moscou.






Dois de seus aliados mais próximos, os primeiros-ministros Robert Fico da Eslováquia e Andrej Babiš da República Tcheca, parabenizaram Magyar. No entanto, as felicitações foram cautelosas e sem grande entusiasmo.
Babiš escreveu no X que enfrentar um oponente tão forte como Viktor Orbán nunca foi fácil, mas que Magyar conquistou a confiança da maioria dos húngaros e carrega grandes esperanças e expectativas, acrescentando que ele “não pode decepcionar”.
Fico, conhecido por suas longas mensagens em vídeo e comunicados de imprensa, enviou um e-mail conciso com três pontos. Ele declarou respeito pela decisão dos eleitores húngaros e disse estar pronto para uma “cooperação intensiva” com o novo governo em Budapeste.
Prioridades da Eslováquia inalteradas
Fico afirmou que as prioridades da Eslováquia permanecem as mesmas: reviver o Grupo Visegrád (uma aliança informal entre a República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia), proteger interesses energéticos comuns e restaurar o fornecimento de petróleo russo para a Eslováquia e a Hungria através do oleoduto Druzhba.
Esses suprimentos foram interrompidos em janeiro, após ataques de drones e mísseis russos em uma seção do oleoduto na Ucrânia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, indicou recentemente que os reparos poderiam começar nas próximas semanas.
Incerteza para a Europa Central
As respostas calibradas de Bratislava e Praga refletem a magnitude da mudança Política em Budapeste e a incerteza que agora paira sobre a Europa Central, onde Orbán era há muito tempo a figura central em uma aliança de líderes nacionalistas e populistas.
Orbán, aliás, foi cofundador do grupo eurocético Patriots for Europe ao lado de Babiš em 2024. Para os líderes tcheco e eslovaco, o resultado da eleição não é apenas simbólico, mas potencialmente significativo para seu próprio posicionamento político.
O que a derrota de Orbán significa para Fico
Martin Poliacik, ex-membro do parlamento eslovaco, afirmou que a maior ameaça para a Rússia é uma Ucrânia livre, independente e democrática. Por extensão, a maior ameaça para Fico seria uma Hungria pró-europeia, pois os eslovacos veriam que isso é possível.
A derrota de Orbán também o priva de um parceiro chave no cenário europeu. O líder húngaro era visto como um interlocutor tanto com Moscou quanto com Washington.
Fico agora é o homem de Putin na Europa?
Alguns acreditam que a Rússia, pelo menos, voltará sua atenção total para a Eslováquia. Poliacik, no entanto, expressou dúvidas de que Fico possa assumir o lugar de Orbán como o homem de Putin na Europa, citando seu cansaço e a falta de uma equipe forte de executores combativos.
O líder eslovaco havia ameaçado bloquear o empréstimo de 90 bilhões de euros da UE para Kyiv caso Orbán fosse derrotado, mas alguns duvidam que ele esteja realmente pronto para desafiar o resto da UE sozinho.
A eleição de Magyar trará estabilidade?
Mesmo com Orbán fora do poder, analistas alertam que a mudança na Hungria pode não levar à estabilidade a longo prazo. Poliacik comentou que é difícil se manter no poder na Europa atualmente, comparando a situação a um pêndulo oscilante.
Essa volatilidade é bem compreendida em Praga. Andrej Babiš retornou ao poder no final de 2025 liderando uma coalizão que inclui seu movimento ANO, o partido conservador Motoristas por Si Mesmos e a extrema-direita anti-imigração SPD. Críticos argumentam que o governo já busca remodelar elementos-chave do sistema democrático liberal da República Tcheca, incluindo a mídia pública e o papel da sociedade civil, seguindo o manual de Orbán.
Limites para o que Babiš pode fazer na República Tcheca
Analistas apontam que existem limites estruturais para o que Babiš pode alcançar no cenário tcheco. Jindrich Sidlo, comentarista político tcheco, observou que Babiš percebeu durante seu primeiro mandato como primeiro-ministro que não pode controlar o país da mesma forma que Orbán. Ele destacou que Orbán governou por mais tempo, teve resultados eleitorais diferentes, não há Senado na Hungria e ele pôde moldar o sistema eleitoral a seu favor.
Sidlo acredita que Babiš pode ter invejado isso, mas entende que não é realista na República Tcheca. Mesmo a mudança da lei eleitoral requer acordo entre a Câmara e o Senado, algo que não pode ser forçado. Portanto, Babiš é, nesse sentido, uma versão muito mais fraca de Orbán.
E as alianças construídas por Orbán?
Além da política nacional, a derrota de Orbán também pode afetar uma rede mais ampla de alianças construídas na última década. Andras Lederer, do Comitê Húngaro de Helsinque, argumenta que a Hungria desempenhou um papel central no apoio a atores semelhantes em toda a Europa, fornecendo apoio político e financeiro a think tanks, grupos de defesa e iniciativas de mídia alinhados com uma visão mais soberanista da Europa.
Com Orbán fora do poder, essa rede provavelmente diminuirá significativamente ou até desaparecerá.
O Grupo Visegrád pode ser revivido?
As implicações podem se estender a formatos de cooperação regional como o Grupo Visegrád. O grupo tem estado em grande parte inativo desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, que expôs profundas divisões entre seus membros. A Polônia e a República Tcheca têm sido fortes apoiadoras de Kyiv, enquanto a Hungria sob Orbán e a Eslováquia sob Fico adotaram posições muito mais hostis.
Babiš sinalizou interesse em reviver o Visegrád, e seu governo já tomou medidas para melhorar as relações com Bratislava. No entanto, sem Orbán, um novo líder húngaro buscando melhorar os laços com Bruxelas e a Polônia aparentemente desinteressada no formato Visegrád – pelo menos até a próxima eleição em Varsóvia – o bloco parece mais moribundo do que nunca.
Fonte: Dw