Por anos, o primeiro-Ministro Viktor Orbán foi considerado um “mago” da política europeia, com um instinto apurado para os medos e desejos de seu povo, capaz de conduzir as marés políticas. Ele venceu quatro eleições seguidas com ampla margem, mais do que qualquer outro líder atual da União Europeia, e declarou a “falência” da democracia liberal antes mesmo de figuras como Vladimir Putin e Donald Trump.



No entanto, no último domingo, ficou evidente que Orbán perdeu sua magia. Péter Magyar, líder da oposição cujo partido Tisza conquistou uma vitória arrasadora nas Eleições gerais da Hungria, declarou que um “regime de mudança” foi inaugurado, e que a Hungria escreveu história.
O que levou à derrota de Orbán?
O resultado eleitoral não representou um terremoto ideológico, mas algo mais pessoal. Os eleitores derrubaram um líder forte que, isolado pela bajulação de aliados e por uma máquina de propaganda, havia perdido o “tato”. A queda do regime de Orbán foi descrita como tão súbita e cataclísmica quanto o colapso do comunismo em 1989.
O feitiço de Orbán foi quebrado por Magyar, um conservador e ex-aliado que compartilha algumas de suas posições, mas oferece um estilo menos agressivo e divisivo. Magyar prometeu uma Hungria “humana”, em paz consigo mesma e com a União Europeia.
O impacto da vitória de Magyar
O partido Tisza conquistou 138 cadeiras no Parlamento, superando em muito o Fidesz, partido de Orbán, que ficou com apenas 55 assentos. Essa vitória foi um revés para apoiadores de Orbán como Donald Trump e figuras da direita europeia.
Orbán e outros populistas de direita ignoraram a regra básica da política: é preciso ser popular para vencer eleições. A política está dividida entre a propaganda televisiva e a realidade vivida pelas pessoas. Magyar reforçou essa ideia ao declarar que Orbán não deu atenção aos problemas que afetam os húngaros, como saúde, educação e custo de vida.
A desconexão entre propaganda e realidade
Orbán apostou na televisão, usando veículos alinhados ao Fidesz para atacar adversários. Magyar foi retratado de diversas formas negativas, enquanto a Ucrânia e o presidente Volodymyr Zelensky foram demonizados. Após a promessa de uma “era de ouro” em 2022, a economia húngara entrou em recessão, com o desemprego no maior nível em dez anos.
A distância entre a propaganda e a realidade tornou-se intransponível. Mesmo entre simpatizantes, havia incômodo com a pouca atenção do premiê às dificuldades econômicas, como escolas degradadas e hospitais precários. Orbán culpou a Ucrânia e a União Europeia pelos problemas econômicos, mas muitos eleitores húngaros estavam cansados do discurso de medo, frustrados com a corrupção e com a insistência do premiê em dizer que a vida estava melhor.
Para muitos eleitores, o principal trunfo de Magyar não eram suas propostas, mas o fato de ele não ser Orbán. O premiê húngaro, que minou normas democráticas ao longo de seus 16 anos no poder, remodelou o país à sua imagem, enfraquecendo freios e contrapesos e controlando a imprensa. O modelo de “Estado iliberal” que ele tentou exportar serviu como um alerta sobre os perigos da concentração de poder sem controle.
Fonte: Infomoney