Investigadores descobriram que espiões contratados por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tinham conhecimento antecipado sobre o avanço das investigações de fraudes relacionadas à tentativa de aquisição do banco pelo BRB (Banco de Brasília). Em 23 de julho do ano anterior, uma ação de hackers acessou documentos sigilosos do caso, que estavam no computador do procurador responsável pela investigação criminal do Ministério Público Federal (MPF).


Apesar do alto sigilo adotado pela Justiça, Vorcaro também foi informado previamente sobre a expedição de um pedido de prisão contra ele. A descoberta do acesso ilegal ocorreu poucos dias após uma varredura nos sistemas do MPF, mas o esquema de espionagem persistiu.
O ex-banqueiro soube com antecedência da ordem de prisão assinada pelo juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, que fazia parte da operação Compliance Zero. Esta operação investigava a venda de R$ 12,1 bilhões em carteiras de crédito para o BRB.
O vazamento da operação desencadeou uma reação da equipe de Vorcaro, em uma sequência de eventos comparada por investigadores a um roteiro de filme policial. A estratégia final de Vorcaro para evitar a prisão seria a fuga do país.
Enquanto buscava autorização para um plano de voo para Malta, a defesa de Vorcaro apresentou um pedido ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que pudesse impedir sua prisão. Paralelamente, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master, movimento que investigadores consideram uma simulação para facilitar a fuga de Vorcaro.
Em reuniões com diretores do Banco Central, o dono do Master discutiu iniciativas para evitar a liquidação do banco, incluindo a possibilidade de venda para investidores estrangeiros. A fala gerou desconfiança no BC sobre o risco de fuga, reforçada pelo pedido antecipado de um encontro.
Enquanto as conversas com o BC ocorriam, a Polícia Federal monitorava os passos de Vorcaro, identificando planos de voo que, segundo a corporação, comprovariam a tentativa de fuga. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa, alegando que ele embarcaria para Dubai para contatos com compradores.
Integrantes da PF acreditam que a existência de múltiplas rotas de fuga confirmaria a intenção de evadir do país, sendo ele abastecido por informantes. Um desses informantes, identificado como operador central de um grupo, coordenava atividades de obtenção de informações e monitoramento de pessoas.
ESTADO TERMINAL
A estratégia de Vorcaro não obteve sucesso. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro. Na mesma noite, o Banco Central já havia aprovado a liquidação do Master, quase simultaneamente à assinatura do pedido de prisão pelo juiz.
O BC justificou a liquidação pela crise crônica de liquidez do conglomerado, agravada por estratégias de negócios inadequadas, irregularidades, ilícitos e composição de ativos de baixa liquidez. A decisão visou a adoção imediata de medidas saneadoras.
Funcionários antigos do BC relataram pressão sobre o órgão em relação ao caso. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, mencionou episódios de pressão política e difamação contra diretores do órgão que analisaram a operação com o BRB.
Na véspera da negativa da operação, partidos políticos na Câmara dos Deputados assinaram um requerimento de urgência para um projeto de lei que permitiria ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC. Esses movimentos contribuíram para uma união maior no colegiado do BC, que inicialmente apresentava divisões internas.
No dia do anúncio da liquidação, o Master possuía R$ 4,8 milhões em caixa, enquanto os vencimentos de CDBs somavam R$ 48,6 milhões. O passivo total daquela semana era de R$ 123,8 milhões, resultando em um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%.
TEIA DE FUNDOS E EMPRESAS
As fraudes envolvendo o Master contavam com a participação de pelo menos 216 fundos e 143 empresas, segundo levantamento. Um software especializado foi utilizado para mapear as conexões, que foram sendo atualizadas.
A investigação começou a partir de seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC. Esses fundos detinham ativos utilizados nas fraudes, como papéis de baixa liquidez e créditos de carbono, cujo valor era estimado em bilhões.
O dinheiro obtido com a valorização artificial das cotas desses fundos era injetado em outras empresas da rede de fraudes. Em um dos casos, os recursos foram usados para a compra de uma mansão de R$ 36 milhões utilizada por Vorcaro em Brasília.
Fonte: UOL