Um alívio cauteloso é o que muitos países da África Subsaariana experimentam após o anúncio de um cessar-fogo entre os Estados Unidos, Israel e Irã, e a reabertura do Estreito de Ormuz para o comércio marítimo. No entanto, economistas alertam que uma recuperação mais ampla levará tempo.






Alívio é temperado pela vulnerabilidade
Daniel Silke, diretor da Political Futures Consultancy, sediada na Cidade do Cabo, afirma que, após a pandemia, muitos países em desenvolvimento conseguiram reduzir a inflação. Contudo, essa conquista corre o risco de ser revertida pelo aumento dos preços globais, afetando não apenas o petróleo, mas também os custos de fertilizantes, gás natural liquefeito (GNL) e outros suprimentos críticos de energia.
A situação é particularmente grave para famílias que destinam uma parcela significativa de sua renda para energia e transporte, o que, segundo Silke, deve deprimir a demanda em toda a África, que vinha em ascensão até esta crise.
África do Sul: população pobre espera alívio
Este é o caso da África do Sul, que anunciou aumentos históricos nos preços dos combustíveis em abril. Anteriormente, o governo havia garantido um acordo que permitia a passagem de suas embarcações de carga e combustível pelo estreito. O Irã, por meio de sua embaixada na África do Sul, assegurou que o país não era um alvo e que embarcações sul-africanas poderiam transitar pelo Estreito de Ormuz.
Apesar disso, muitos sul-africanos que abasteceram seus veículos antes do aumento de preços no início de abril sentiram um alívio, pois o reajuste foi menor do que o esperado. No entanto, o preço do diesel subiu acentuadamente.
Em comunidades carentes da Cidade do Cabo, alguns residentes expressaram preocupação com o futuro, temendo que o conflito no Oriente Médio traga mais dificuldades, como o aumento dos custos de eletricidade, alimentação e transporte para hospitais.
Agora, há um certo alívio com a notícia do cessar-fogo, que impacta positivamente o país: o rand, os títulos do governo e as ações registraram alta. Silke espera que os consumidores sintam o impacto imediatamente nas bombas de combustível.
No entanto, especialistas aconselham cautela nas expectativas. Dr. Abdul Hakim Ahmed, especialista em economia política internacional da Universidade de Winneba, em Gana, explica que, com o acordo de cessar-fogo ainda instável, qualquer queda nos preços é imprevisível. Ele ressalta que, uma vez que os preços sobem, levam tempo para baixar.
Um ponto de virada para a estratégia energética da África?
Ambos os especialistas acreditam que a crise deve levar a uma reflexão mais profunda no continente. Silke argumenta que os choques globais recorrentes forçam os países africanos a reconsiderar sua dependência de centros energéticos externos.
Ahmed reforça a necessidade de mudanças estruturais, apontando para a produção e refino domésticos. Ele sugere que os países africanos invistam em suas capacidades de refino para aproveitar as reservas de petróleo e gás, além de diversificar para fontes de energia alternativas, como a nuclear.
Por ora, o cessar-fogo proporciona um alívio financeiro imediato, mas a perspectiva geral permanece incerta. Enquanto as negociações continuam e as tensões persistem, as economias africanas permanecem expostas, não apenas ao resultado deste conflito, mas aos desafios estruturais mais profundos que ele expõe.
Apesar da guerra entre EUA e Israel com o Irã e das restrições seletivas de Teerã ao Estreito de Ormuz, os carregamentos de carga e combustível para a África do Sul puderam transitar.
O Irã está apenas fazendo uma declaração política?
No início do conflito no Oriente Médio e com o aperto nas cadeias de suprimento de energia globais, Pretória pediu moderação e ofereceu mediação. A África do Sul depende de importações de gás e petróleo, mas seus navios de carga transportam muito pouco pelo estreito. Cerca de 24% das importações de petróleo bruto do país vêm da Arábia Saudita, com petróleo refinado e produtos de petróleo enviados pelo Mar Arábico.
Dr. Lumkile Mondi, economista e professor da Wits Business School, afirma que o Irã é parte de uma base de fornecimento mais ampla para a África do Sul. Ele acredita que a permissão para a passagem de um navio que trazia petróleo para a África do Sul foi apenas uma declaração política.
Segundo Mondi, os preços dos alimentos provavelmente subirão e os sul-africanos podem esperar mais dificuldades como resultado da guerra entre EUA e Israel com o Irã.
Primeiros sinais de uma reflexão política
A guerra com o Irã tem sido destaque na África do Sul, com muita especulação pública sobre as implicações e consequências para o país, que depende fortemente de petróleo e gás importados. Há também um debate sobre se o Irã, um aliado tradicional, se tornou um passivo.
Em uma conferência regional em março, o Ministro de Minerais e Recursos de Petróleo, Gwede Mantashe, disse que a África como um todo precisa focar em seu próprio petróleo e gás. Ele enfatizou a necessidade de aproveitar esses recursos de forma responsável para impulsionar o crescimento econômico inclusivo, criar empregos e erradicar a pobreza.
As relações da África do Sul com o Irã remontam à Guerra Fria, quando o Congresso Nacional Africano lutava contra o Apartheid.
Fonte: Dw