O cenário econômico global deve permanecer mais inflacionário, com o mercado se adaptando gradualmente ao conflito no Oriente Médio, segundo Vitor Tartari, gestor da Somma Investimentos. A tendência observada é semelhante àquela após o início da guerra na Ucrânia, quando investidores inicialmente reduziram o risco e, posteriormente, voltaram a buscar ativos que se beneficiam desse cenário.






Tartari observou que o primeiro movimento de aversão ao risco ocorreu em março, com uma corrida para caixa e queda generalizada no apetite por investimentos. Atualmente, o mercado parece mais calmo e focado em identificar os “vencedores” dessa conjuntura.
Apesar disso, o gestor avalia que o episódio atual tende a ser mais curto que o conflito na Ucrânia, seja por desescalada militar, acordo político ou mudanças no cenário doméstico dos Estados Unidos. Mesmo com uma eventual descompressão das tensões, Tartari não espera um retorno aos níveis anteriores para variáveis-chave, como o preço do petróleo.
Petróleo e Ativos Reais
O gestor estima que o petróleo não deve retornar aos níveis anteriores ao conflito, permanecendo na faixa de US$ 70 a US$ 80. Esse patamar mais elevado tende a persistir devido à dependência de várias economias na commodity e à necessidade de recompor estoques estratégicos para enfrentar choques de oferta. A China, por exemplo, teria cerca de um ano de consumo estocado, enquanto Estados Unidos e países do G7 também possuem reservas relevantes.
Nesse ambiente, a preferência da Somma Investimentos continua sendo por ativos reais e mercados que se beneficiam de inflação mais elevada. A gestora já gostava desses ativos antes do conflito e mantém essa visão, citando ações de commodities e títulos indexados à inflação.
Países exportadores de commodities e com juros reais elevados tendem a se destacar. O peso elevado do setor de energia na bolsa brasileira também contribui para o desempenho relativo do mercado local em períodos de petróleo mais firme.
Carteira e Cenário Brasileiro
Dentre as preferidas da Somma na bolsa brasileira estão Prio (PRIO3), Petrobras (PETR4), Axia (AXIA3) e Equatorial (EQTL3). Paralelamente, a gestora mantém exposição à tecnologia nos Estados Unidos, um setor considerado “transformacional” por sua capacidade de ganhar escala e expandir margens.
A estratégia da gestora combina ativos reais, como energia, com empresas de crescimento estrutural. Em termos de alocação, a Somma trabalha com posições em torno de um nível neutro, ajustando a exposição conforme o cenário.
Apesar das preocupações com o fiscal e os juros no Brasil, o país segue bem posicionado no contexto global, o que levou a Somma a manter, ao longo do tempo, exposição neutra ou acima do neutro na bolsa brasileira. A preferência recai sobre empresas com capacidade de repassar inflação, cortar custos e expandir margens, o que tende a gerar resultados melhores em ambientes voláteis.
Eleições e Política Monetária
Tartari avalia que a próxima eleição presidencial no Brasil tende a ser menos estressante para o mercado do que a disputa anterior. A leitura do mercado aponta para um cenário “menos extremo”, o que reduziria o nível de tensão observado no último pleito.
O gestor da Somma afirma que o mercado vê um eventual quarto mandato de Lula como uma continuidade do atual governo, o que seria mais parecido com o de Dilma Rousseff do que com o primeiro mandato de Lula, apresentando um caráter mais intervencionista. Há a percepção de que Lula “flerta com extremos”, mas não avança de forma decisiva nessa direção.
No campo macroeconômico, Tartari considera que o Banco Central agiu corretamente ao sair de uma postura cautelosa diante do cenário recente. No entanto, as revisões de inflação após o início do conflito no Irã e a alta do petróleo elevaram as expectativas do mercado, com projeções para este ano passando de cerca de 3,6%-4,0% para aproximadamente 4,3%-4,5%.
Apesar disso, o gestor avalia que o Banco Central possui instrumentos para conter a pressão inflacionária derivada do petróleo. Na sua visão, a autoridade monetária manterá uma postura cautelosa no curto prazo, mas terá espaço para acelerar novamente o ritmo de cortes da Selic, possivelmente retornando a movimentos de 50 pontos-base quando considerar necessário.
Fonte: Moneytimes