Milhares de pessoas são esperadas para participar das tradicionais marchas de Páscoa do movimento pela paz na Alemanha, com mais de cem eventos organizados em dezenas de cidades entre 2 e 6 de abril. Jornais alemães veicularam anúncios para mobilizar a população.






As manifestações, listadas no site da Rede do Movimento pela Paz Alemão, incluem desde passeios de “Bikes pela Paz” até concertos e encontros com discursos sobre as guerras em Gaza, Ucrânia, o conflito em Rojava, na Síria, além de direitos humanos e justiça climática.
Este ano, as marchas devem ser marcadas pela reforma do serviço militar pelo governo alemão. Desde o início do ano, jovens de 18 anos recebem um questionário militar para avaliar sua motivação e aptidão para o serviço. Homens são obrigados a preencher os formulários, enquanto mulheres podem fazê-lo voluntariamente.
A nova lei do serviço militar gerou uma série de greves escolares em todo o país, e é provável que as marchas de Páscoa deste ano vejam uma maior participação de jovens. Cerca de 20 das demonstrações incluirão palestrantes que abordarão a questão do recrutamento.
Movimento pela paz descentralizado
Não faltam motivos para que as marchas pela paz continuem relevantes. Questões como Ucrânia e Rússia, a região do Golfo, Israel e Palestina, e o bombardeio do Irã serão temas centrais, assim como o fortalecimento do direito internacional.
As marchas são organizadas de forma descentralizada, sem uma diretiva central. O movimento pede ao governo alemão que lance “iniciativas diplomáticas para o fim das guerras”, contribua para o fortalecimento do direito internacional e ofereça mais apoio às vítimas de conflitos.
A rede critica a “interpretação seletiva do direito internacional” pelo governo, argumentando que a Alemanha deveria condenar ataques como os de Israel ao Irã tanto quanto a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Apesar das preocupações válidas, não se espera um aumento massivo no público das marchas de Páscoa este ano. Muitos, inclusive dentro do próprio movimento pela paz, sentem-se mais ambivalentes sobre os conflitos atuais. A situação na Ucrânia, por exemplo, é mais complexa do que a guerra do Iraque em 2003, quando a maioria concordava que o ataque era errado. Agora, com o quarto aniversário do ataque a Bucha, é mais difícil mobilizar contra o fortalecimento da Ucrânia.
Tradição antiga, urgência renovada
As marchas de Páscoa na Alemanha surgiram no início dos anos 1960, inspiradas pela Campanha pelo Desarmamento Nuclear no Reino Unido. Cresceram rapidamente durante a Guerra Fria, de alguns milhares de participantes para centenas de milhares em 1968.
Tradicionalmente, os participantes são reunidos por diversas organizações, incluindo igrejas, sindicatos, partidos de esquerda e grupos pacifistas. Estes últimos, inspirados por objetores de consciência, têm oferecido cada vez mais aconselhamento e apoio a jovens que desejam recusar o serviço militar.
No entanto, as marchas de Páscoa têm lutado para mobilizar pessoas nos últimos anos. As organizações tradicionais já não possuem o mesmo potencial de mobilização, e algumas mudaram suas próprias posições sobre a política de paz.
Alguns alemães foram desencorajados de participar das marchas de Páscoa devido à apropriação da causa por elementos de extrema-direita e figuras políticas controversas. Contudo, o pacifismo ainda ocupa um lugar importante no debate público alemão, servindo como um contraponto em tempos de remilitarização.
Alemães mais preocupados com a guerra
A sensação de segurança na Alemanha caiu drasticamente nos últimos anos. Um relatório de fevereiro indicou que apenas 55% dos alemães se sentem seguros, uma queda em relação a 2025 e mais acentuada desde 2019. Cerca de dois terços dos alemães temem que o país possa se envolver diretamente em uma guerra.
O “Relatório de Segurança” anual também constatou que menos alemães acreditam que a OTAN os manterá seguros, em parte devido à falta de confiança nos EUA como garantidores da paz na Europa. Apenas 42% acreditam que a aliança repeliria com sucesso um ataque russo, uma queda de cerca de 14 pontos percentuais em relação ao ano anterior.
As pessoas se sentem ameaçadas pela situação global. Em vista disso, espera-se mais participantes do que no ano passado, apesar de o clima não ser favorável. Ainda assim, há um otimismo cauteloso de que mais pessoas comparecerão neste fim de semana de Páscoa.
Fonte: Dw