A um mês e meio do início dos ataques de Estados Unidos e Israel contra Teerã, americanos e iranianos têm marcada para este sábado (11) a primeira reunião para discutir o fim das hostilidades que impactaram o Oriente Médio e o mercado global de energia.



Na sexta-feira (10), houve uma troca de ameaças entre as partes. O Irã ameaçou cancelar as conversas caso Israel não inclua o Hezbollah libanês no cessar-fogo de duas semanas anunciado na terça-feira (7) para viabilizar as negociações, o que Israel já indicou que não fará.
O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social que os iranianos não compreendem que suas únicas cartas são a extorsão pelo uso de rotas marítimas internacionais. Ele completou que a única razão para eles estarem vivos hoje é para negociar.
A reunião está sendo preparada para ocorrer em Islamabad, capital do Paquistão, sob forte esquema de segurança. A delegação do Irã chegou com o chanceler Abbas Araghchi e o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, confirmou a presença de iranianos e americanos para negociar.
Ghalibaf reafirmou o desejo pelo fim dos ataques ao Líbano. O governo Netanyahu não incluiu em sua trégua o combate ao grupo Hezbollah, que entrou na guerra atacando israelenses em apoio ao Irã.
Tel Aviv promoveu o maior ataque da campanha no dia seguinte, matando mais de 300 pessoas. Desde então, troca fogo pontualmente com os militantes, mas, a pedido de Trump, abriu negociações com o governo libanês, as quais o Hezbollah rejeitou.
Ghalibaf também apresentou uma nova demanda: o descongelamento de ativos iranianos sancionados no exterior para viabilizar as negociações.
Por outro lado, o vice de Trump, J. D. Vance, afirmou que a negociação será positiva, mas ressaltou que é preciso observar. Ele disse que, se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa-fé, os EUA estenderão uma mão aberta, mas que, se tentarem enganar, descobrirão que a equipe negociadora não é receptiva.
A equipe negociadora dos EUA inclui o chefe negociador de Trump, Steve Witkoff, e o genro presidencial Jared Kushner. A dupla já atua no conflito entre Rússia e Ucrânia e vinha conversando de forma mediada por Omã com o Irã.
O formato das conversas, caso ocorram, ainda não está claro. Nas rodadas anteriores, os americanos transmitiam suas demandas ao chanceler omani, que as repassava aos iranianos, e vice-versa.
A última vez que EUA e Irã negociaram diretamente foi na costura do acordo nuclear de 2015, que trocou o fim de sanções à teocracia pelo fim de sanções em troca de restrições à capacidade de enriquecimento de urânio do país por 15 anos. Trump abandonou o acordo em 2018, e Teerã passou a desrespeitar os termos, enriquecendo urânio a nível militar.
O Irã possui 441 kg de urânio a 60%, o suficiente para até 15 bombas rudimentares de baixo rendimento. Trump bombardeou centrais do programa nuclear iraniano e agora exige o fim do programa, o que a teocracia recusa.
Os EUA haviam divulgado um plano de 15 pontos que exigia a rendição do Irã, considerado inaceitável por Teerã. O Irã, por sua vez, enviou dez pontos que Trump aceitou negociar, mas o presidente americano afirma que os pontos divulgados pelo regime não são os mesmos enviados por meio do Paquistão.
O Irã também introduziu um item complexo na negociação: o controle do estreito de Hormuz, sua arma mais estratégica na guerra. Trump classificou isso como extorsão.
O Irã fechou virtualmente o trânsito de 20% do petróleo e gás natural liquefeito do planeta ao ameaçar explodir navios, o que fez os preços de energia dispararem e gerou riscos sistêmicos. O cessar-fogo de duas semanas decretado na terça-feira teoricamente incluía a reabertura de Hormuz, o que não ocorreu.
O Irã aproveitou a situação e criou uma nova rota para navios que passa por suas águas, driblando minas que a Guarda Revolucionária disse ter colocado no caminho usual, e obriga o pagamento de um pedágio por carga, o que é ilegal.
Trump protestou contra a iniciativa, que Teerã quer que seja incluída em um acordo de paz. O americano, no entanto, seguiu com a negociação, pois politicamente precisa encontrar uma saída para o conflito, que afeta sua popularidade a sete meses de uma eleição parlamentar crucial nos EUA.
Israel não participará das conversas no Paquistão, pois os países não mantêm relações diplomáticas. Suas ações no Líbano podem descarrilar as conversas previstas, mas o Irã também rompeu os termos da trégua ao atacar países árabes do golfo Pérsico desde então.
O mais sensível desses países é a Arábia Saudita, que tem um pacto militar com os paquistaneses. Uma ação mais dura contra Riad pode ter o mesmo efeito de um bombardeio devastador em Beirute, evidenciando a precariedade do ambiente para negociar.
Fonte: UOL