A Hungria se aproxima de um pleito eleitoral com um cenário de incertezas, onde escândalos recentes abalam a confiança no governo atual e a oposição busca capitalizar o descontentamento popular. Peter Magyar, líder da oposição e do centro-direita Tisza, já se apresenta como um futuro primeiro-ministro, delineando prioridades e buscando diálogo com eleitores que não o apoiam.






Magyar, advogado e ex-diplomata de 45 anos, demonstra autoconfiança, agindo como se a vitória nas eleições de 12 de abril já fosse certa e o processo de transição de poder estivesse em andamento. Essa postura reflete o sentimento de muitos húngaros, insatisfeitos com a gestão do atual primeiro-ministro Viktor Orbán.
Mudança significativa no eleitorado
O cientista político Laszlo Keri compara o momento atual com os eventos de 1989 e 1990, prevendo uma alta participação eleitoral, similar às primeiras eleições parlamentares livres. Ele ressalta que o pleito pode influenciar o futuro da Europa em um momento de redefinição continental.
Pesquisadores eleitorais apontam para uma transição de uma eleição considerada segura para uma incerta, refletindo a instabilidade política. Nas últimas semanas, Orbán e seu partido Fidesz foram abalados por escândalos que parecem ter afastado eleitores indecisos.
Desejo por renovação na Hungria
A maioria das pesquisas independentes projeta uma vitória clara para Magyar e o Tisza, com algumas indicando uma maioria de dois terços. Embora tais projeções devam ser vistas com cautela, elas confirmam um desejo majoritário pelo fim do regime Orbán e por um recomeço político, social e econômico para a Hungria.
Um dos fatores que mais impactou o eleitorado foi a entrevista de Bence Szabo, ex-investigador criminal. Seu departamento, que deveria combater pornografia infantil online, teria sido usado pelo governo Orbán em uma operação secreta contra o Tisza.
Acusações de compra de votos e negligência
Revelações sobre as condições precárias no Exército húngaro, que se preparava para uma missão na África Central, também geraram forte reação. A missão foi supostamente idealizada pelo filho de Orbán, Gaspar, com uma visão religiosa para a “salvação da África”.
Outros escândalos vieram à tona, incluindo o documentário “O Preço do Voto”, que alega que o partido Fidesz compra votos de dependentes químicos, ciganos e húngaros de baixa renda. Notícias sobre a exposição de trabalhadores a condições perigosas em uma fábrica de baterias da Samsung, com poluição do solo e da água, e a falta de ação governamental também vieram a público.
A notícia sobre a luxuosa reforma do prédio do Banco Nacional da Hungria, incluindo um banheiro privativo com assento sanitário dourado para o ex-presidente Gyorgy Matolcsy, também gerou indignação.
Relações com a Rússia em xeque
A imagem de uma elite que se enriquece enquanto a sociedade e o meio ambiente sofrem, acusando críticos de serem “anti-húngaros”, se consolidou. Leituras de chamadas telefônicas entre Orbán, o ministro das Relações Exteriores Peter Szijjarto e a liderança do Kremlin expuseram uma subserviência extrema à Rússia.
Orbán e seu partido tentaram justificar as ações como uma estratégia para proteger a Hungria de “interferências ucranianas e da UE”. A campanha eleitoral focou na defesa do país contra essas supostas ameaças, com Orbán afirmando que a eleição decidiria se ele ou o presidente ucraniano Zelenskyy comandariam o governo húngaro.
A campanha também utilizou inteligência artificial generativa para criar vídeos com conteúdo falso, marcando um possível uso pioneiro dessas táticas em eleições europeias. A situação foi resumida pelo portal húngaro Telex: “No final da campanha, resta uma pergunta: o medo é mais poderoso que a esperança?”
Fonte: Dw