O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, detalhou em depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado a reunião que teve no Palácio do Planalto com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo Galípolo, após o encontro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou que o tema fosse tratado tecnicamente, sem “pirotecnia”.
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Galípolo relatou que a orientação presidencial foi de não proteger nem perseguir ninguém, garantindo autonomia para o trabalho do BC. A reunião ocorreu em novembro de 2024, e Galípolo foi convocado pelo chefe de gabinete da Presidência.
Durante a reunião, os acionistas do Master apresentaram uma narrativa de perseguição pelo mercado financeiro, alegando que essa percepção prejudicava suas captações. Galípolo, contudo, não concordava com essa versão, considerando o tamanho e a relevância do banco.
Ele explicou que é comum que partes de processos no BC busquem a Presidência. A resposta de Lula foi que o tema deveria ser discutido com o BC, e não diretamente com o presidente da República, uma vez que Galípolo assumiria o cargo em breve.
Participaram da reunião Daniel Vorcaro, ex-sócio do Master Augusto Lima, o ministro da Casa Civil Rui Costa, o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.
Galípolo negou ter tido interlocução com o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre o Banco Master. O Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF, tentou comprar o Banco Master, mas a operação foi rejeitada pelo BC em setembro do ano passado, gerando problemas patrimoniais e de liquidez para o BRB.
O presidente do BC mencionou que, na semana da rejeição da compra, houve uma campanha difamatória contra um diretor do BC. Ele também afirmou que o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, não é apontado como culpado em processos de auditoria ou sindicância relacionados à crise do Banco Master.
Galípolo refez a linha do tempo da autorização para o Master operar como instituição financeira. O pedido inicial foi rejeitado em fevereiro de 2019 por falta de clareza na origem dos recursos. Em outubro de 2019, já sob a presidência de Campos Neto, o pedido foi aprovado, apesar do histórico do banco de endossos à sua saúde financeira e elevação de rating em novembro de 2024.
Ele ressaltou a dificuldade em prever dolo naquele momento, dada a auditoria de grandes empresas, análise de ativos por escritórios de advocacia e supervisão por servidores. Uma das sugestões de Galípolo em setembro de 2025 foi retomar o rodízio entre supervisores.
A decisão de gestão foi constituir um grupo apartado para análises detalhadas, o que levou ao afastamento e investigações mais aprofundadas. Galípolo relatou que, em certo ponto, a discussão passou da avaliação do valor dos ativos para a própria existência deles.
O liquidante do Banco Master contratou empresas especializadas em recuperação de ativos no exterior. Galípolo explicou a estrutura do passivo do Master, dividindo entre os garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e os não garantidos, que geralmente eram realizados por instrumentos de dívida adquiridos por investidores profissionais.
Fonte: Globo