A recente valorização das ações preferenciais PETR4 da Petrobras na Bolsa de Valores (B3) reflete a alta da principal commodity da estatal: o petróleo. Em razão da guerra entre Estados Unidos e Irã, o setor petrolífero mundial, no qual a companhia brasileira está inserida, vive uma disparada de preços.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil enfatizam as oportunidades abertas para a Petrobras diante da crise no Oriente Médio, classificada por analistas do banco norte-americano Goldman Sachs como um autêntico choque do petróleo. Diferentemente dos choques anteriores, o atual encontra o Brasil autossuficiente em produção de petróleo bruto, do qual é exportador.
Segundo balanço da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a produção brasileira de petróleo e gás natural bateu recorde em fevereiro, alcançando 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d). “Considerando que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas tributárias [do Brasil], assim como dividendos fluindo para o Tesouro”, afirmam os economistas István Kecskeméti e Zoltan Horváth.
O país ainda necessita importar derivados como diesel, gasolina e querosene de aviação. Na esteira da produção recorde de fevereiro, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa cogita a possibilidade de atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos.
O que você precisa saber
- Ações PETR4 da Petrobras registraram valorização de cerca de 20% em aproximadamente um mês, impulsionadas pela guerra no Oriente Médio.
- O barril de petróleo Brent atingiu picos de US$ 116,25, refletindo a ameaça de bloqueio do estreito de Ormuz.
- O Brasil se encontra autossuficiente em produção de petróleo bruto, mas ainda necessita importar derivados como diesel e gasolina.
Impacto da guerra no Oriente Médio
A guerra no Irã tem sido um fator determinante para a alta recente das ações da Petrobras. No dia 27 de fevereiro, véspera do início dos ataques, a cotação PETR4 fechou a R$ 39,33. Em 2 de março, após o início dos conflitos, as ações abriram a R$ 41,30 e fecharam a R$ 41,13, registrando uma valorização de 4,58%. Nos 22 dias seguintes, os títulos preferenciais da Petrobras deixaram de fechar no azul em apenas sete dias, alcançando R$ 47,29 em 1º de abril.
A cotação do barril de petróleo Brent acompanha essa tendência. Em 27 de fevereiro, fechou a US$ 73,25, e em 2 de março, a US$ 77,75. No dia 2 de abril, esteve cotado a US$ 107,94, após atingir um pico de US$ 116,25 no dia 9 de março.
Fatores estruturais e conjunturais
Para o professor Maurício Weiss, da UFRGS, o comportamento das ações da estatal brasileira de petróleo é uma “síntese de fatores conjunturais e estruturais”. Ele explica que, além do conflito no Oriente Médio, a Petrobras já vinha apresentando desempenho notável em termos de produtividade e lucratividade. “Desde o ano passado, houve uma grande elevação do lucro da Petrobras em relação ao [ano] anterior [2024]. Chegou a praticamente 200% de aumento [do lucro], superior a R$ 110 bilhões. Isso é resultado do aumento da produção de petróleo e gás, especialmente por conta do pré-sal”, assinala.
O economista Cloviomar Cararine, do Dieese, ressalta que a avaliação do valor de uma empresa não é 100% neutra e objetiva, mas resulta da confluência de análises operacional, política e de mercado. Ele lembra que a descoberta e exploração das reservas do pré-sal impulsionaram o perfil da Petrobras, mas que a companhia também enfrentou escândalos de corrupção e mudanças de política de preços.
Perspectivas futuras e transição energética
Cararine afirma que a eleição de Donald Trump e a guerra no Irã servem como lembrete de que a economia mundial continua largamente dependente dos combustíveis fósseis. A China, por outro lado, aposta na diversificação de sua matriz energética. “A China tem petróleo, carvão e minerais críticos, mas tem apostado nos últimos anos na não-dependência do petróleo.”
A Petrobras, avalia, deveria levar em conta esses fatores e converter-se de empresa petrolífera em empresa de energia. “O futuro vai depender dessa relação de forças. Se, por um lado, esse modelo americano, que considero insustentável, permanecer por mais tempo, isso adiará a transição energética. Se houver uma mudança de direção nos Estados Unidos, com um governo mais preocupado com isso, crescerá o espaço para políticas que vão no mesmo sentido”, finaliza.



Fonte: G1