O endividamento das famílias e a percepção de queda no poder de compra no último ano tornaram-se centrais nas estratégias das pré-campanhas presidenciais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara um pacote para aliviar o peso das dívidas no orçamento da população, enquanto a pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) explora o alto custo de vida para tentar desgastar o governo e atrair eleitores indecisos.
Pesquisas internas indicam que o alto endividamento compromete a renda e reduz o poder de compra, impactando negativamente a avaliação do cenário econômico.
Entre as medidas em estudo pelo governo Lula para reverter esse quadro, está um programa voltado a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos. A proposta inclui a possibilidade de sacar até 20% do saldo do FGTS para quitação de dívidas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, mencionou em entrevista um novo programa de renegociação de dívidas, com descontos de bancos e garantia do governo para refinanciamento com juros reduzidos.
A pré-campanha de Lula está atenta ao endividamento, avaliando que ele dificulta a percepção positiva de ações governamentais, como a isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil.
Lula tem expressado publicamente sua preocupação com o endividamento e o comprometimento da renda familiar. Ele também destacou o problema das apostas online, defendendo medidas para coibir essa prática, embora a decisão final dependa do Congresso.
Dados do Banco Central apontam que as famílias brasileiras comprometem 29% da renda com dívidas, o maior percentual em 20 anos. O número de inadimplentes cresceu significativamente, atingindo 81,7 milhões de pessoas em fevereiro, segundo a Serasa.
Apesar de indicadores macroeconômicos positivos, como a menor taxa de desemprego e o crescimento do PIB, a desaprovação do governo Lula persiste, com 51% de avaliações negativas em março, segundo pesquisa Genial/Quaest.
Pesquisas indicam que a alternativa “piorou” na avaliação da situação econômica pessoal foi a mais mencionada em março, chegando a 56%. O aumento do preço dos alimentos também contribui para essa percepção negativa, especialmente para famílias de baixa renda.
Felipe Nunes, CEO do instituto Quaest, aponta três fatores para o descompasso entre indicadores e sentimento popular: o endividamento (cartão de crédito, consignado), o nível dos preços e as dívidas em sites de apostas.
Desenrola
O programa Desenrola Brasil, lançado em 2023, visava renegociar dívidas de famílias com renda de até dois salários mínimos. O programa, encerrado em maio de 2024, atendeu cerca de 15 milhões de pessoas e negociou R$ 53,2 bilhões em dívidas. No entanto, a percepção sobre a economia não melhorou significativamente após o fim do programa.
Eleitor está pouco otimista
Márcia Cavallari, diretora da Ipsos-Ipec, observa que o eleitor demonstra pouco otimismo quanto ao futuro. A percepção de que os preços se estabilizaram em patamares elevados e o endividamento recorde afetam o bem-estar econômico.
Cavallari sugere que a baixa popularidade do governo não se deve a falhas de comunicação, mas sim a uma percepção negativa influenciada por fatores como altos juros, endividamento e menor poder de compra, que se tornam temas centrais no discurso político.
Flávio e candidatos da direita atacam
A campanha de Flávio Bolsonaro foca no custo de vida como estratégia para desgastar Lula e atrair eleitores indecisos, argumentando que a preocupação com os preços transcende barreiras ideológicas.
A mensagem de que “viver no Brasil está caro” é intensificada por Flávio, que promete reduzir impostos e aumentar a eficiência do Estado. A equipe do senador considera o custo de vida uma “pauta transversal” que impacta diretamente o bolso da população.
A percepção de perda do poder de consumo, somada à falta de segurança pública e à corrupção, contribui para um “mal-estar” geral. Candidatos da direita, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, também criticam o governo Lula com base na dificuldade financeira das famílias.
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Fonte: Globo