Para Mónica Long, presidente da Ripple, a diferença entre projetos sustentáveis e apostas passageiras no mercado de criptomoedas reside na capacidade da tecnologia de resolver problemas reais para pessoas e empresas. “Tecnologia sem um dedo que aperte o gatilho não funciona. Só porque é interessante não significa que será útil para as pessoas”, afirmou em entrevista.



O mercado de ativos digitais atravessa um ciclo de baixa, o chamado “inverno” cripto, agravado pelo cenário macroeconômico global. Long considera este um movimento cíclico natural, já visto diversas vezes na indústria. O preço do bitcoin caiu 24,29% e o token XRP, da Ripple, recuou 32,54% no ano.
Projetos que dependem apenas da especulação com ativos digitais tendem a não sobreviver. “Se o modelo depende apenas da valorização da criptomoeda, e os mercados caem, você perde a base de clientes. Os que sobrevivem têm uma solução real para um problema real”, explicou.
Embate com a SEC e o Genius Act
A Ripple, fundada há 13 anos, não opera como corretora de tokens, mas como fornecedora de infraestrutura financeira para instituições. A companhia oferece tecnologia para que bancos, fintechs e empresas possam realizar pagamentos internacionais usando criptomoedas, stablecoins ou moeda fiduciária.
O ambiente regulatório representa um desafio, embora Long veja o Brasil como um cenário propício. Nos Estados Unidos, a empresa enfrentou um processo da SEC (Securities and Exchange Commission) por venda irregular do token XRP. Em 2023, uma decisão judicial parcial favoreceu a Ripple, e em março de 2025, a SEC encerrou o litígio com multa reduzida.
A aprovação do Genius Act, que cria um marco regulatório federal para stablecoins, tambcoins nos EUA, teve impacto imediato. Após a lei, os ativos custodiados por instituições financeiras e o volume de pagamentos em stablecoin mais que dobraram. “A clareza regulatória é condição para a adoção em escala”, disse Long.
Brasil como polo de crescimento
A Ripple está no Brasil desde 2018 e considera o país o mercado de maior crescimento nas Américas em pagamentos certificados. A empresa escolheu São Paulo como sede de suas operações latino-americanas, e a equipe local dobrou de tamanho no último ano.
Fatores como um ecossistema financeiro robusto, dificuldades em pagamentos internacionais, clareza regulatória crescente e uma base de empreendedores familiarizada com a tecnologia tornam o Brasil estratégico. Long não vê o Pix como ameaça, pois o método resolve pagamentos domésticos, enquanto criptoativos podem conectar brasileiros a blockchain para transações internacionais.
A perspectiva é que o Brasil sirva de modelo para a região. “As duas coisas andam juntas: sem regulação clara, não conseguimos conectar as redes blockchain com as redes existentes, como o Pix”, concluiu. A aderência de usuários, contudo, é um desafio, considerando o ambiente de inadimplência e pouca poupança no país.
Fonte: UOL