A partir de 2026, o Gás Natural Liquefeito (GNL) opera sob uma nova lógica, marcada por menor previsibilidade, maior sensibilidade a disrupções e crescente valorização da segurança energética.
Diferentemente do petróleo, que possui maior liquidez e flexibilidade logística, o GNL depende de uma cadeia intensiva em capital e pouco responsiva no curto prazo. A liquefação, o transporte e a regaseificação exigem anos de investimento e planejamento, limitando a capacidade de resposta a choques de oferta, que penalizam desproporcionalmente os mercados importadores.
Ataques iranianos ao terminal de GNL de Ras Laffan, no Catar, comprometeram cerca de 3% da capacidade global de liquefação. Estima-se que 17% da capacidade de exportação de GNL do Catar ficará paralisada por até cinco anos. A intensificação do conflito com o Irã eleva o risco de disrupções logísticas, impactando diretamente o preço final do GNL com o aumento de fretes, seguros e prêmios contratuais.
O ciclo geopolítico atual reforça uma mudança de comportamento dos agentes, substituindo a lógica de otimização de custos pela de segurança de suprimento. O GNL se consolidou como um ativo estratégico, com um “prêmio de segurança” que carrega um componente geopolítico mais persistente.
Essa dinâmica impulsiona a diversificação da produção de GNL para diminuir a dependência estratégica, com Argentina, Tanzânia e Moçambique como exemplos. Tradings houses pressionarão por essa diversificação, buscando alternativas aos EUA e à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
A Venezuela também se beneficiará, com aceleração de investimentos das grandes petroleiras na produção de GNL. Essa transformação, catalisada pela crise envolvendo EUA, Israel e Irã, já estava em curso desde 2022, redefinindo o comportamento dos agentes do setor.
Em um ambiente mais incerto, fatores como confiabilidade e previsibilidade tornam-se tão relevantes quanto o custo da molécula, redefinindo o peso de diferentes aspectos na tomada de decisões do setor.
Fonte: Estadão