Os Estados Unidos declaram ter conhecimento sobre a localização do material nuclear mais sensível do Irã e a capacidade de recuperá-lo. No entanto, inspetores internacionais que verificaram o urânio enriquecido pela última vez indicam que essa certeza está longe de ser estabelecida.


Com grande parte da atenção global focada no Estreito de Ormuz e no frágil cessar-fogo mantido nas últimas 48 horas, essa divergência de informações expõe uma mudança nas prioridades de Washington. Atualmente, não há verificação independente sobre a localização ou a condição de todo o estoque de urânio altamente enriquecido do Irã, material que poderia ser utilizado em armas em poucos dias com processamento adicional.
Antes da interrupção das inspeções devido a ataques entre os EUA e Israel ao Irã em junho de 2025, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) havia registrado cerca de 441 quilos de urânio altamente enriquecido no país. Desde então, os inspetores perderam a confiança de que sabem a localização exata de todo esse material.
O presidente Donald Trump afirmou que os EUA trabalhariam com Teerã para remover o material nuclear, que ele descreveu como profundamente enterrado e intocado desde os ataques americanos, sob constante vigilância por satélite. O secretário de Guerra, Pete Hegseth, sugeriu a possibilidade de forças americanas apreenderem o material.
Contudo, diplomatas com acesso a avaliações confidenciais da AIEA descrevem um cenário distinto. Dois funcionários baseados em Viena, familiarizados com o trabalho da agência, relataram que inspetores não foram informados sobre qualquer plano conjunto entre EUA e Irã para recuperar o urânio. A relação entre o Irã e a AIEA deteriorou-se significativamente desde os ataques mais recentes, iniciados em 28 de fevereiro, com poucas chances de restaurar o acesso de monitoramento no curto prazo.
Isso resulta em uma falta de visibilidade clara para o órgão nuclear global e para os próprios EUA sobre um dos estoques mais perigosos do mundo. Embora Trump e Hegseth tenham indicado que o estoque está concentrado em túneis próximos ao complexo nuclear de Isfahan, diplomatas acreditam que apenas metade esteja localizada ali.
O restante provavelmente está distribuído em instalações como Natanz ou Fordow, ou em locais desconhecidos. O Irã já havia notificado a AIEA há um ano sobre a possibilidade de mover contêineres de material para um local não declarado caso se sentisse ameaçado.
Robert Kelley, engenheiro nuclear e ex-diretor da AIEA, ressaltou que a imagem de satélite é ineficaz para verificar a localização do inventário de urânio do Irã, e que o conhecimento sobre o número de contêineres vem da contagem feita pela AIEA.
O desafio se estende ao estoque já conhecido. O Irã possui mais de 8.000 quilos de urânio enriquecido em diferentes níveis, material que precisaria ser contabilizado em qualquer acordo futuro. Diplomatas apontam que a reconstrução de um quadro verificável do programa iraniano poderia levar anos, mesmo com um entendimento entre Washington e Teerã.
A infraestrutura de monitoramento de décadas foi danificada ou destruída. Instalações de centrífugas foram atingidas, lacres da AIEA foram rompidos e a cadeia de custódia que permitia o acompanhamento do material colapsou. Parte do urânio pode ter sido liberada no ambiente após os ataques, complicando as medições e a recuperação.
Na prática, os inspetores teriam que reconstruir duas décadas de conhecimento sobre as atividades nucleares do Irã, um processo que não pode ser acelerado por declarações políticas.
Esforço complicado pela falta de dados
A incerteza também dificulta qualquer esforço dos EUA para apreender fisicamente o material. Hegseth mencionou a possibilidade de forças de operações especiais recuperarem o urânio, ecoando missões passadas. No entanto, sem inteligência precisa e verificada independentemente, tais operações carregariam riscos significativos.
Para as tropas em solo, a tarefa poderia se limitar a contar contêineres, sem confirmar seu conteúdo, uma distinção crucial para material que pode ser rapidamente reaproveitado. A falta de clareza sobre a localização aumenta a possibilidade de que qualquer operação deixe parte do estoque de fora, mantendo material residual sem rastreamento.
Ambiguidade como vantagem para o Irã
A ambiguidade sobre o estoque de urânio concede ao Irã uma vantagem estratégica em negociações. James Acton, físico e diretor na Carnegie Endowment for International Peace, afirma que Teerã mantém poder de barganha, especialmente com as prioridades dos EUA em aparente mudança.
Uso da força militar e ambições nucleares
A questão sobre se o uso da força militar retardou significativamente as ambições nucleares do Irã permanece sem resposta clara. Darya Dolzikova, pesquisadora sênior no Royal United Services Institute, em Londres, acredita que os ataques não tiveram grande chance de eliminar o programa por completo.
Ela argumenta que o programa nuclear iraniano não seria eliminado por meios militares e que não há avaliações de danos confiáveis. Embora a infraestrutura tenha sido degradada, a capacidade de base, incluindo conhecimento técnico e material remanescente, permanece. O conflito pode ter reforçado o incentivo do Irã para manter ou expandir essa capacidade, complicando o quadro estratégico em Teerã.
Fonte: Infomoney