A crise energética global, intensificada pela guerra no Oriente Médio, está impulsionando um ressurgimento do interesse pela energia nuclear em diversos países. O conflito promete dificultar o acesso ao gás natural liquefeito (GNL), combustível essencial para a geração de energia na Ásia e que tem sofrido com o aumento de preços em outras regiões devido à diminuição da oferta.
Em resposta, a energia nuclear, vista como uma fonte alternativa menos vulnerável a choques externos, ganha novo apoio. Em Taiwan, o presidente Lai Ching-te sinalizou abertura à energia nuclear para atender à crescente demanda, uma mudança drástica em relação à política anterior de “pátria livre de energia nuclear” após o desastre de Fukushima em 2011. A ilha, que desligou seu último reator em maio de 2025, tornou-se precariamente dependente de importações energéticas, especialmente para sua indústria de semicondutores, justamente quando o fornecimento de GNL foi pressionado pela guerra no Oriente Médio.
A empresa estatal Taipower já apresentou um plano para reiniciar uma usina nuclear. A decisão, no entanto, surpreendeu muitos devido a décadas de preocupações com a segurança e o armazenamento de resíduos em uma ilha propensa a terremotos.
Mudanças na Ásia e Europa
Mudanças semelhantes ocorrem em toda a Ásia, que importa cerca de 90% do GNL produzido no Oriente Médio. No Japão, reguladores alteraram requisitos antiterrorismo para facilitar o reinício de reatores operacionais. Na Coreia do Sul, o governo acelerará o trabalho em usinas nucleares em manutenção para reiniciá-las mais cedo.
Tatsuya Terazawa, CEO do Instituto de Economia Energética do Japão, aponta que a turbulência no Oriente Médio e a provável interrupção das entregas de GNL por anos dão aos países “mais um motivo para apostar na energia nuclear”. As políticas energéticas de Japão e Taiwan, remodeladas pelo desastre de Fukushima, podem influenciar outras nações globalmente.
Nos Estados Unidos, o governo apoia o ressurgimento nuclear com garantias de empréstimos e créditos fiscais. A China também constrói capacidade nuclear em ritmo acelerado. David Brown, da Wood Mackenzie, afirma que interrupções prolongadas no fornecimento e preços elevados de energia “podem desbloquear um novo nível de apoio político” à energia nuclear, embora o financiamento e a cadeia de suprimentos sejam desafios.
Debate e Críticas
A aceleração da energia nuclear não é bem recebida por todos. Críticos apontam que reiniciar usinas ou construir novas é um processo lento, improvável de aliviar as crises de fornecimento de curto prazo. Em Taiwan, especialistas estimam que levaria anos para religar reatores, e uma usina já está inativa há tempo demais. Defensores de energias renováveis argumentam que elas são mais seguras, alinhadas com metas climáticas e podem ser implantadas mais rapidamente.
Hajime Matsukubo, do Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos no Japão, considera que investir em energia renovável é mais racional devido aos altos custos e longos tempos de construção da energia nuclear. Outros expressam frustração com a dependência de combustíveis importados após o abandono da energia nuclear.
Na Alemanha, a ministra de Assuntos Econômicos e Energia, Katherina Reiche, lamentou a decisão anterior do país de eliminar gradualmente a energia nuclear, considerando-a um “erro enorme” diante da pressão sobre a economia alemã causada pela guerra no Oriente Médio.


Fonte: UOL