Aos 80 anos, a artista Vivian Ostrovsky, conhecida por seu trabalho no cinema experimental, prefere se definir como uma observadora, com pessoas desconhecidas como protagonistas de seu “teatro do cotidiano”. Sua obra, que recusa o título de cineasta, foca em flagrantes do dia a dia, como pessoas tirando selfies ou buscando o ângulo perfeito.





Nascida em Nova York e criada no Rio de Janeiro, Ostrovsky, filha de imigrantes judeus, entrelaça em seus filmes vivências de diferentes países. Ela observa que o mundo atual, com suas conexões mais próximas entre regiões como Europa e América Latina, e a ressonância de conflitos globais, difere do cenário que costumava filmar.
Cinema intuitivo e conexões visuais
Desde seu curta de estreia nos anos 1980, Ostrovsky prioriza a intuição, conectando imagens para dar forma às suas ideias. Ela explora registros rotineiros e intervenções visuais em fotos e objetos, com um interesse particular em ações corporais, comportamentos coletivos e a forma como frases e imagens se manifestam em diferentes contextos.
A pesquisadora Fernanda Pessoa, que desenvolveu um curta sobre a diretora, destaca a natureza inclassificável do repertório de Ostrovsky, que a leva a evitar roteiros e atores. A cineasta argumenta que a distância entre o planejado e o real é grande, e que os dispositivos móveis atuais permitem filmagens mais genuínas, pois as pessoas nem sempre se sentem observadas.
Um acervo global de culturas e identidades
Ao longo de sua carreira, Ostrovsky construiu um vasto acervo de panoramas culturais. Filmes como “Domínio Público” e “Movie (V.O.)” costuram continentes e grupos sociais, apresentando boxeadores do Brooklyn, dançarinos catalães, canções indianas e acordes de samba.
Outras obras exploram as artes plásticas através de correspondências com a pintora Ione Saldanha em “CORrespondências e REcorDAÇÕES”, ou ironizam arquétipos em “The Title Was Shot”. “Nikita Nino” revisita suas frequentes idas a Moscou, ligadas à descoberta de parentes que lá viviam.
Pioneirismo no cinema feminino e legado
Na década de 1970, Ostrovsky, junto à curadora Esta Marshall, criou festivais de cinema feminino, promovendo discussões sobre gênero e sexualidade. Seus estudos em Paris, onde teve contato com expoentes da nouvelle vague como Eric Rohmer, a aproximaram de cineastas como Martá Mészáros, Agnès Varda e Chantal Akerman.
Essas iniciativas resultaram na organização Ciné-Femmes International, dedicada a exibir filmes feitos por mulheres. Com rolos de película e outras mídias, elas divulgaram obras de Akerman, Varda e outras autoras, com o feminismo como critério de distribuição. Ostrovsky lamenta uma possível perda de liberdade criativa, notando que filmes hoje podem hesitar em chocar o público.
Atualmente, a artista concilia produções e curadoria de mostras internacionais. Ela tem o Festival de Cinema de Jerusalém como uma herança familiar, instituição que promove pautas progressistas em meio a tensões regionais. Ostrovsky busca em filmes recentes, como “Collapse”, visões pessoais que espelham o mundo, e afirma que seu trabalho é motivado pelo medo de perder memórias, misturando suas paixões por cinema, arte, música, fotografia e poesia, rejeitando o padrão.
Fonte: UOL