O Irã inicia a retomada das negociações após duas semanas de trégua, com uma posição mais forte do que no início das hostilidades.
Os Estados Unidos reconheceram o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo consumido no mundo. Não houve rendição incondicional, nem derrubada do regime dos aiatolás, nem apreensão dos estoques de urânio enriquecido.
Durante o conflito, o fechamento do estreito foi suficiente para estrangular o mercado de petróleo, desorganizar as rotas de produção e distribuição do comércio mundial, fortalecer a economia da Rússia com a alta do petróleo, gerar inflação e fomentar a oposição ao governo dos Estados Unidos.
Tudo indica que, ao iniciar os ataques em 28 de fevereiro, o presidente Donald Trump não previu esses poderosos efeitos colaterais adversos.
Não está claro o que os Estados Unidos obterão do Irã nas negociações futuras, nem se voltarão a atacar a infraestrutura iraniana. O quadro de incertezas persiste sobre a geopolítica e a economia global.
A normalização da oferta de petróleo ainda não é certa. Se o estreito for reaberto após novo fechamento, é provável que os países consumidores aproveitem a trégua para recompor e reforçar seus estoques, o que pressupõe um aumento da demanda, enquanto a oferta precisará de tempo para se normalizar.
Será necessário reparar danos às refinarias e à infraestrutura de produção e exportação dos países do Oriente Médio.
Do ponto de vista da economia brasileira, duas variáveis merecem acompanhamento. A primeira é a cotação do petróleo. Os subsídios temporários aos combustíveis foram decididos pelo governo Lula com base no aumento de receitas com royalties e contribuições especiais decorrentes da alta do petróleo. Se os preços internacionais recuarem, os subsídios também deverão ser revistos para baixo.
Outro fator é a trajetória das cotações da moeda estrangeira. A tendência é de enfraquecimento do dólar. Em relação ao real, já caiu quase 7% desde o início do ano, fechando em R$ 5,1029, cotação mais baixa em quase dois anos.
Esta variável tende a ajudar no controle da inflação e na redução dos juros, pois contribuirá para a diminuição dos preços de produtos importados e dos produzidos internamente com cotação dolarizada, como café, soja, milho e fertilizantes.
Fonte: Estadão