Reciclagem avançada de plástico: solução ou blefe?

Ativistas investigam programa de reciclagem avançada de plástico em Houston, Texas, que promete alto índice de reaproveitamento, mas levanta dúvidas sobre sua eficácia e riscos ambientais.

Ativistas ambientais em Houston, Texas, investigam um programa municipal que promete reciclar até 90% dos plásticos, incluindo materiais de difícil processamento. A iniciativa, uma parceria com gigantes da indústria petroquímica como ExxonMobil, LyondellBasell e Cyclyx International, levanta suspeitas de que o material não está sendo efetivamente reciclado, mas sim transferido para locais de armazenamento e abandonado.

76481948 1004
76481948 1004
76481948 1004
76481948 1004
76481948 605
76481948 605
76481948 605
76481948 605
76481948 803
76481948 803
76481948 803
76481948 803

Malachi Key, ativista da Air Alliance Houston, relatou ter encontrado evidências de que o plástico destinado à reciclagem foi movido para terceiros e deixado sem processamento, contrariando as promessas da cidade. Jen Hadayia, diretora executiva da organização, afirma que o processo não ocorre da forma divulgada pelo município.

Produção de plástico deve dobrar até 2050

O programa municipal utiliza um processo avançado que visa tratar plásticos de uso único, como embalagens de salgadinhos e potes de iogurte, que normalmente são difíceis de reciclar. A indústria emergente, que atraiu investimentos significativos, utiliza calor, enzimas ou solventes para quebrar os plásticos em compostos químicos menores. Estes, por sua vez, são transformados em blocos de construção para novos plásticos, supostamente indistinguíveis dos virgens e com potencial de serem remanufaturados repetidamente.

A American Chemistry Council descreve a reciclagem avançada como um avanço para a recuperação de plásticos, contribuindo para uma economia circular. No entanto, críticos apontam riscos ambientais e de saúde associados a essa tecnologia.

Riscos ambientais e de saúde na reciclagem química

Lee Bell, consultor do International Pollutants Elimination Network, destaca que cerca de 14.000 substâncias químicas são usadas como aditivos em plásticos, e mais de um quarto delas são perigosas, necessitando de tratamento como resíduo. Ele argumenta que o processo de separação desses aditivos gera fluxos de resíduos perigosos.

Veena Singla, cientista de saúde pública da University of California San Francisco, aponta que as próprias instalações de reciclagem química podem representar riscos. Ela menciona que três instalações nos EUA geraram mais de 900 toneladas de resíduos perigosos em cerca de três anos e são autorizadas a emitir poluentes atmosféricos nocivos à saúde.

Além disso, Singla observa que, embora a indústria afirme criar apenas plástico para reutilização, as plantas também produzem combustível para queima, o que resulta em menos material reciclado e maior necessidade de produção de plástico virgem. A produção global de plástico, que já ultrapassa 400 milhões de toneladas anuais, deve dobrar ou triplicar até 2050. Bell considera a reciclagem química um exercício de propaganda para desviar a atenção do aumento da produção e poluição plástica.

Reciclagem química enfrenta dificuldades

A American Chemistry Council estima que os EUA poderiam abrigar 150 plantas de reciclagem avançada, gerando US$ 12,9 bilhões em produção econômica anual. Contudo, o progresso é lento. Em 2023, havia 11 instalações operacionais na América, das quais quatro fecharam por falência ou inviabilidade financeira.

Das instalações ainda em operação, apenas uma está na área metropolitana de Houston, um polo de produção de plásticos. A unidade pertence à Exxon Mobil, que afirma ter processado mais de 68.000 toneladas de resíduos plásticos em novos produtos e combustíveis. No entanto, Hadayia, da Air Alliance Houston, classifica a iniciativa como uma “solução falsa”, enquanto a Exxon Mobil rebate, chamando a visão dos ativistas de “propaganda” que “prejudica o planeta”.

Bell identifica um problema fundamental no modelo de negócios: o custo de criar novos plásticos a partir de materiais reciclados é superior ao de usar matérias-primas virgens, especialmente quando o preço do petróleo está baixo. Em Houston, após dois meses de espera, os ativistas constataram que a caixa de frango com o rastreador não havia sido recolhida, indicando que não estava sendo reciclada.

A cidade de Houston se limitou a informar que coleta apenas em nove pontos designados, em uma metrópole com quase 2,5 milhões de habitantes. Para Hadayia, a verdadeira solução para o lixo plástico reside na redução do consumo de plásticos de uso único, revertendo a dependência atual.

Fonte: Dw

Adicionar um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Imagens e vídeos são de seus respectivos autores.
Uso apenas editorial e jornalístico, sem representar opinião do site.

Precisa ajustar crédito ou solicitar remoção? Clique aqui.

Publicidade