Petrobras: Demissão de diretor expõe fragilidade na governança corporativa

Demissão de diretor da Petrobras após críticas de Lula ao leilão de GLP expõe fragilidades na governança e afeta confiança do investidor.

A recente demissão do diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Claudio Romeo Schlosser, após críticas públicas do presidente Lula ao leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), levanta preocupações entre analistas de governança. O episódio sugere que decisões técnicas podem estar sendo substituídas por pressões políticas na estatal.

O leilão, realizado no final de março, resultou em um ágio superior a 100% para o GLP. O presidente Lula criticou a ação, classificando-a como “cretinice” e “bandidagem”, e afirmou que o leilão ocorreu sem a orientação do governo. Ele determinou a revisão e anulação do leilão, declarando que o povo pobre não arcaria com os custos de tal decisão.

Em nota, a Petrobras informou que o Conselho de Administração aprovou o encerramento antecipado do mandato de Schlosser, que atuava na petroleira há quase 40 anos. A decisão gerou um alerta sério sobre a governança da empresa.

Governança em Risco

Lígia Maura Costa, coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGVethics), considera o episódio um “ponto crítico de governança”. Ela destaca que a demissão após crítica pública presidencial sinaliza que decisões técnicas podem ceder espaço a pressões políticas.

Costa ressalta a gravidade da situação para a Petrobras, dada a história da empresa e os escândalos passados. A companhia, como empresa listada em bolsa, possui compromissos formais de governança para garantir critérios técnicos e independência em suas administrações.

Confiança do Investidor Abalada

A especialista enfatiza que o Conselho de Administração da Petrobras, mesmo com o governo federal como acionista controlador, tem o dever fiduciário de não se curvar a pressões políticas. Tal atitude violaria a lei e as boas práticas de mercado.

“Esse fato é temerário, porque fragiliza a governança e afeta diretamente a confiança dos investidores”, afirma Costa. Ela acrescenta que o controlador não deve usar a empresa para atender interesses de curto prazo, eleitorais ou setoriais, pois isso viola princípios básicos da administração pública e os compromissos da própria Petrobras.

Desconfiança no Mercado

Fábio Andrade, cientista político da ESPM, embora não veja ilegalidade na demissão, considera a decisão temerária por gerar desconfiança nos avaliadores de mercado. Ele aponta que, embora as decisões de gestão não estejam completamente blindadas, a interferência governamental levanta dúvidas sobre o caráter técnico ou político das mesmas.

“Os compradores de ações olham com muita desconfiança para decisões que levantam a suspeita de interferência governamental”, comenta Andrade. Analistas do mercado financeiro também expressaram apreensão com os indícios de interferência governamental na governança e nos preços da estatal, alertando que aqueles que apresentarem barreiras ao controle de preços de combustíveis podem se tornar alvos.

Fonte: Estadão

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