Doses reduzidas de um antibiótico, a minociclina, podem auxiliar no tratamento do transtorno do pânico, conforme aponta um estudo com apoio da Fapesp. A pesquisa, publicada na revista Translational Psychiatry, sugere que a substância apresenta um efeito comparável ao do clonazepam, um medicamento comumente prescrito para a condição.




Os experimentos, conduzidos na Unesp e na UFRJ, indicaram que as doses de minociclina necessárias para o tratamento foram inferiores às utilizadas contra infecções bacterianas. Essa dosagem menor tem o potencial de diminuir o risco de desenvolvimento de resistência bacteriana.
Beatriz de Oliveira, autora principal do estudo, explicou que, em modelos experimentais com camundongos expostos a dióxido de carbono para induzir ataques de pânico, a minociclina reduziu uma das respostas panicogênicas. Em participantes humanos, o tratamento demonstrou diminuir a intensidade das crises de pânico desencadeadas pela inalação de CO2.
A pesquisa sugere que a melhora nos sintomas pode estar associada ao efeito anti-inflamatório da minociclina em baixas doses, atuando sobre células nervosas. Essa via de ação difere daquela do clonazepam, que age inibindo receptores específicos no cérebro.
A minociclina pode representar uma alternativa para pacientes que não respondem adequadamente ao clonazepam, que afeta cerca de 50% dos casos. O clonazepam, ao potencializar a ação do neurotransmissor GABA, pode causar efeitos colaterais como redução das frequências cardíaca e respiratória, diminuição da capacidade de decisão e dependência.
Análise de Citocinas e Respostas Comportamentais
Em análises sanguíneas, pacientes que receberam minociclina apresentaram redução nos níveis de citocinas pró-inflamatórias, como interleucina (IL) 2sRα e IL-6, e um aumento da IL-10, que favorece a resposta anti-inflamatória. Houve também diminuição da citocina TNFα, associada a processos inflamatórios.
O estudo envolveu 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico. Eles foram submetidos à inalação de ar com 35% de dióxido de carbono no início e após sete dias de tratamento com clonazepam ou minociclina. Os sintomas de ansiedade foram avaliados por psiquiatras treinados.
Embora a concentração de CO2 utilizada não seja encontrada na natureza, ela simula a sensação de sufocamento experimentada em ataques de pânico. O grupo que tomou clonazepam serviu como controle, pois seria antiético usar placebo.
Análises do locus coeruleus, uma região cerebral sensível ao CO2, revelaram uma diminuição na densidade de micróglias em camundongos seis horas após a exposição ao gás, reforçando o papel dessa área cerebral nos ataques de pânico.
A adoção da minociclina para o tratamento do transtorno do pânico ainda requer novos estudos. No entanto, a pesquisa abre perspectivas para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para esta e outras condições psiquiátricas possivelmente ligadas à inflamação em células nervosas.
Fonte: UOL