O livro “Cobalto de Sangue”, do pesquisador Siddharth Kara, revela as condições de trabalho análogas à escravidão e a exploração infantil na extração de cobalto na República Democrática do Congo (RDC). Kara investiga há 21 anos o trabalho escravo e infantil globalmente e aponta que a extração do mineral, essencial para baterias de celulares, notebooks e veículos elétricos, envolve um custo humano altíssimo.


Cerca de 70% do cobalto mundial vem da RDC, com uma parcela significativa extraída por mineradores artesanais, conhecidos como garimpeiros. O mineral extraído de forma irregular se mistura à cadeia legal, tornando impossível a distinção de sua origem. O autor acompanhou por três anos a rotina desses garimpeiros, documentando mortes e mutilações causadas por desmoronamentos em túneis.
A obra descreve a exploração de homens, mulheres grávidas e crianças, que trabalham em túneis precários por longas horas. O cobalto extraído é vendido a atravessadores e, posteriormente, chega a grandes mineradoras na China e Suíça, que o comercializam para fabricantes de baterias. A China, em particular, domina 80% do refino do cobalto.
Kara compara a situação atual com a exploração colonial, destacando que, diferentemente do passado, hoje há consciência sobre as condições de extração. Ele questiona a escolha de acreditar nas equipes de marketing das empresas de tecnologia, que tornam a atualização constante de dispositivos indispensável.
O setor de cobalto prevê um crescimento exponencial na demanda devido ao uso em baterias de carros elétricos, o que pode intensificar a exploração e os danos ambientais na RDC. O autor sugere que, embora não seja possível parar o uso desses equipamentos, a troca frequente de aparelhos pode ser evitada.
Uma das passagens mais marcantes do livro relata um tradutor dizendo a Kara: “Por favor, diga às pessoas no seu país que no Congo todo dia morre uma criança para que elas possam conectar seus telefones.”
Fonte: UOL