A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 na Europa se inicia em um cenário de incertezas, marcado pelo conflito no Oriente Médio, o aumento da inflação na zona do euro e a expectativa de elevação das taxas de juros pelo Banco Central Europeu (BCE). Os resultados corporativos, que começam a ser divulgados em meados de abril, fornecerão um indicativo sobre como as empresas europeias estão precificando a crise e seu potencial agravamento.



Lucros em alta, mas com ressalvas
As empresas do índice STOXX 600 devem apresentar um crescimento médio de 4% nos lucros do primeiro trimestre, revertendo a queda de 2% registrada no período anterior. As receitas também devem crescer 1,7% em relação ao ano anterior. No entanto, esse desempenho positivo é impulsionado quase que exclusivamente pelo setor de energia, cujos lucros são esperados em alta de 24,9% devido à disparada dos preços do petróleo. Excluindo o setor energético, o crescimento dos lucros para os demais setores do STOXX 600 fica em apenas 1,5%.
A diferença entre o crescimento dos lucros e das receitas sugere que as empresas europeias têm focado em cortes de custos e reestruturação para sustentar suas margens, uma estratégia que foi amplificada pelo conflito no Oriente Médio.
Contexto macroeconômico desafiador
O conflito no Oriente Médio surge em um momento delicado para a economia europeia. O BCE prevê que a guerra custará cerca de 0,3 ponto percentual do PIB da zona do euro até o final de 2026, reduzindo a projeção de crescimento real para 0,9%. Analistas de mercado, como os do Goldman Sachs, revisaram para baixo as projeções de crescimento do PIB da zona do euro e para cima as de inflação. A inflação na zona do euro saltou para 2,5% em março, impulsionada pela alta nos preços de energia. Há projeções de que a inflação possa ultrapassar 3% nos próximos meses, com possíveis efeitos sobre os preços dos alimentos.
Primeiras semanas: luxo e tecnologia em foco
A temporada de balanços começa com empresas de peso como LVMH, BMW e ASML. O setor de luxo, em particular, enfrenta um cenário adverso, com a desaceleração do consumo e o impacto da guerra no Oriente Médio, que representa uma parcela significativa das receitas. Para a LVMH, a expectativa de crescimento de receita na região foi invalidada, e projeções indicam queda nas vendas em março e abril. O setor de tecnologia, representado pela ASML, fabricante de máquinas para semicondutores, mostra maior resiliência, com forte demanda estrutural impulsionada pela inteligência artificial.
Industriais, energia e bancos sob escrutínio
As semanas seguintes trarão os resultados de empresas industriais, farmacêuticas e do setor de energia, como a italiana ENI. O setor de energia, beneficiado pelos altos preços do petróleo, deve apresentar resultados robustos. Os bancos europeus, que tiveram um desempenho forte no último trimestre, também serão observados de perto. Embora o aumento das taxas de juros possa beneficiar as margens de juros, o risco de estagflação — combinação de inflação alta com baixo crescimento econômico — pode pressionar a inadimplência e a qualidade dos ativos.
O veredito do mercado
A temporada de balanços do primeiro trimestre servirá como um teste de estresse para a resiliência das empresas europeias em um cenário de conflito. Embora a disciplina de custos e o setor de energia sustentem os lucros agregados, a fragilidade subjacente da economia europeia é uma preocupação. A grande questão que se apresentará é se os danos causados pela guerra ao crescimento e à confiança na Europa serão temporários ou estruturais.
Fonte: Euronews