A intensificação dos bombardeios em Líbano por Israel, como desdobramento da guerra no Irã, expôs a vulnerabilidade de trabalhadoras domésticas migrantes. Mariatu, 28, de Serra Leoa, foi levada a um hotel seguro com seus patrões, mas uma semana depois foi abandonada sob o argumento de custos elevados, ficando sozinha e aterrorizada em um país estrangeiro.



Neste contexto de crise humanitária no Oriente Médio, trabalhadores domésticos, em sua maioria migrantes, compõem um dos grupos mais vulneráveis. Eles enfrentam abusos, exploração e abandono, reflexo de uma cultura que invisibiliza e dificulta a proteção, especialmente das mulheres no setor.
O sistema de kafala, comum no Oriente Médio, vincula o empregado migrante a um patrocinador local, que detém controle sobre sua vida. A fuga do emprego é frequentemente criminalizada, levando à irregularidade, prisão, detenção e deportação. Trabalhadoras podem ter passaportes retidos, eliminando sua autonomia, conforme alerta Nada Wahba, coordenadora regional da Federação Internacional das Trabalhadoras Domésticas (IDWF).
Em tempos de conflito, os abusos se intensificam e as trabalhadoras domésticas são tratadas como descartáveis, fora de políticas de proteção. A desvalorização histórica do trabalho de cuidado agrava essa vulnerabilidade. Casos de abandono e acesso restrito a serviços de emergência e abrigos aumentam, com medo de acessar serviços sem documentação e dificuldades de repatriação.
Mariatu, após ser rejeitada pelos patrões, buscou apoio na Domestic Workers Advocacy Network (DoWAN), organização de trabalhadoras estrangeiras que atua na ausência de proteção estatal. Ela relata ouvir bombardeios e ter medo de emergências.
A DoWAN foi fundada por Mariam Sesay, também de Serra Leoa, que sofreu abusos como doméstica no Líbano. O número de pessoas apoiadas pela organização saltou de 10-15 para cerca de 250 por semana com o conflito. Outra organização, a Regroupement des Migrant.e.s de l’Afrique Noire (Reman), também viu um aumento expressivo nos pedidos de ajuda, de menos de 100 para 465 semanais.
Esses coletivos oferecem consultoria jurídica, alimentos, medicamentos e produtos básicos. Apesar da baixa proteção, o trabalho doméstico é economicamente relevante na região, representando 12,3% do emprego no Oriente Médio e mais de 32% do emprego feminino nos Estados Árabes, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O sistema kafala é adotado em países como Qatar, Líbano e Arábia Saudita, dependentes de mão de obra migrante, majoritariamente da África e Ásia. Avanços recentes para coibir abusos têm sido insuficientes, segundo a IDWF, com medidas limitadas e sem mudanças estruturais significativas.
Mariam Sesay, apesar de ter tido o passaporte retido, não pensa em deixar o Líbano, sentindo que há muito trabalho a ser feito para apoiar as pessoas que continuam sofrendo.
Fonte: UOL