O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo e gás consumidos no mundo, demonstrou a capacidade do Irã de gerar crises energéticas e econômicas globais. Mesmo com um cessar-fogo anunciado, a recuperação do mapa energético mundial não será simples, indicam analistas.



O conflito deixará cicatrizes profundas no regime de fornecimento de energia, com expectativas de petróleo e gás natural mais caros, mesmo após a paz. A necessidade de buscar novas fontes de suprimento para evitar riscos geopolíticos se torna urgente, especialmente após a guerra na Ucrânia já ter evidenciado a dependência europeia do gás russo.
Petróleo mais caro e instabilidade
A guerra no Irã e o fechamento de Ormuz desmantelaram as previsões de barateamento do barril de petróleo para o início do ano. Analistas preveem um crudo mais caro do que antes do conflito, mesmo com a eventual reabertura do estreito, pois a produção precisará ser reativada e instalações danificadas, reparadas.
Estimativas indicam um déficit considerável de petróleo nos próximos trimestres, elevando o preço médio do barril de Brent. A gestora J. Safra Sarasin Sustainable AM prevê que o Brent se estabilize entre 80 e 90 dólares até o final do ano, em um cenário de acordo entre EUA e Irã. O risco de escalada bélica, com danos permanentes às infraestruturas energéticas, pode levar o petróleo a 150 dólares.
Segunda crise energética em quatro anos
A longo prazo, o preço do petróleo e do gás incorporará uma prima de risco devido às sequelas do fechamento de Ormuz. O mercado já precifica uma probabilidade maior de interrupções no fornecimento, resultando em uma prima geopolítica mais alta.
A energia mais custosa implica mais inflação, menor crescimento e, em casos extremos, recessão econômica. A União Europeia, ainda se recuperando da crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia, reforça a necessidade de diversificar fontes, rotas e tipos de energia, reconhecendo que o risco agora é sistêmico e global.
Cadeias de suprimentos sob pressão
O Oriente Médio é uma fonte crucial de matérias-primas além de petróleo e gás, incluindo produtos químicos e metais essenciais para fertilizantes, semicondutores e construção. Embora a dependência direta da Europa seja limitada, a menor oferta global eleva os preços.
A Europa, com alta dependência de combustíveis fósseis, sente o impacto do aumento dos preços da gasolina e do diesel. A crise energética pode impulsionar uma transição mais rápida para um modelo energético sustentável e seguro, com maior diversificação e cooperação europeia. O aumento das vendas de veículos elétricos na Europa reflete essa busca por segurança energética.
Em um mundo em processo de desglobalização e com crescente instabilidade geopolítica, a independência e segurança energética tornam-se necessidades urgentes para a Europa, assim como a autonomia financeira e de defesa.
Fonte: Elpais