Polícia Federal indicia cinco por golpe milionário com criptomoedas

PF indicia cinco por esquema de criptomoedas que lesou jogadores como Gustavo Scarpa e William Bigode. Empresa prometia lucros irreais.

A Polícia Federal no Acre indiciou cinco suspeitos de estruturarem um esquema de investimentos fraudulentos que teria causado prejuízos milionários aos jogadores Gustavo Scarpa, William Bigode e Mayke. Segundo o inquérito, o grupo operava por meio da XLand Holding Ltda., que prometia rendimentos mensais entre 2% e 5%, considerados irreais para o mercado.

A relação entre Scarpa e William Bigode é o ponto central do caso. Os dois foram companheiros no Palmeiras e mantinham relação de amizade. Bigode teria indicado o investimento ao colega, por meio de sua empresa de gestão financeira, a WLJC, que funcionou como ponte entre a XLand e os atletas.

Bigode também investiu e afirma que teve prejuízo de R$ 17,5 milhões, sustentando que foi vítima do esquema. Já Scarpa diz ter perdido R$ 6,3 milhões. Mayke e sua mulher investiram cerca de R$ 4,5 milhões.

Bloqueio de salários

Em 2024, Scarpa obteve na Justiça o bloqueio dos salários de Bigode. No início do ano passado, a Justiça deu ganho de causa parcial a Mayke para recuperar o valor aportado.

O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu pelo bloqueio de R$ 530 mil das contas bancárias de William Bigode no processo movido pelo meia-atacante. A decisão também previa o bloqueio de 10% do salário que o atacante recebia do Santos e 20% dos valores que o jogador tinha a receber do Fluminense.

No início de 2025, a Justiça deu ganho de causa parcial a Mayke para recuperar o valor que aportou. Em decisão assinada pelo juiz Christopher Alexander Roisin, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ficou definido que o jogador tem direito a receber os R$ 4.583.789,31 que investiu.

Sem autorização

De acordo com a Polícia Federal, a XLand atuava ilegalmente como instituição financeira, captando recursos de terceiros, aplicando parte dos valores em criptomoedas e administrando contas sem autorização do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Um dos principais atrativos apresentados pela XLand era a suposta garantia em pedras preciosas, especialmente alexandritas, que teriam valor estimado em R$ 2,1 bilhões.

Segundo o relatório de indiciamento, a própria investigação aponta inconsistências nessa garantia. A empresa R Andrade Gemas Preciosas Ltda, que realizou a venda das pedras, informou que a mercadoria possui valor diverso do que a empresa XLand havia declarado. As pedras teriam sido adquiridas pela empresa investigada por R$ 6 mil e valeriam atualmente R$ 20 mil.

“Posto isso, demonstra-se uma grande discrepância nos valores apresentados, o que fortalece a ideia da tentativa de enganar os investidores, apresentando falsas garantias aos clientes”, diz o delegado.

A empresa alegava que os problemas para pagamento dos investidores ocorreram após a falência da corretora. Os federais, porém, apontam outra dinâmica para o uso dos recursos. “É possível concluir que grande parte do dinheiro recebido pela XLand era convertida e mantida em criptoativos”, assinala o delegado da PF Gabriel Koff da Costa, que presidiu o inquérito.

Os investigadores constataram que, ao menos em parte dos aportes realizados por clientes conhecidos da XLand, o dinheiro não era totalmente convertido em criptoativos. Eles apontam indícios de que a fração não convertida era utilizada para pagamento de despesas da empresa, remuneração dos sócios, possível pagamento de comissão a outros envolvidos, doações a entidades religiosas, compra de imóveis, pagamento de despesas relacionadas à construção civil e pagamentos de ‘rendimentos’ a investidores prévios.

“Somando-se todas as contas bancárias analisadas, a XLand apresentou movimentação total de R$ 126.141.627,63 no período de quebra (do sigilo), sendo R$ 63.064.896,46 a crédito e R$ 63.074.231,17 a débito”, segue o relatório de indiciamento em 29 páginas.

O relatório é ilustrado por gráficos que mostram a cronologia das movimentações bancárias da empresa. “Excluindo-se transações com contas de mesma titularidade, devoluções, estornos, tarifas e encargos, é possível observar que as movimentações começaram a diminuir em junho de 2022, isto é, cerca de 5 meses antes da falência da FTX, que ocorreu em novembro daquele ano”, detalha a investigação.

Os indiciados e os crimes, segundo a PF

  • Gabriel de Souza Nascimento e Jean do Carmo Ribeiro – segundo a PF, atuavam na gestão da XLAND, que captava recursos de investidores sem autorização legal e administrava os valores. Foram indiciados por gestão fraudulenta de instituição financeira, apropriação ou desvio de recursos de instituição financeira, induzir investidores a erro mediante informações falsas, operar instituição financeira sem autorização e uso de documento falso.
  • Jucimar Gomes – participava, segundo a PF, da estrutura financeira usada para movimentar os recursos captados. Foi indiciado por desvio de recursos e operar instituição financeira sem autorização.
  • Vinicius de Almeida Mello Oliveira – apontado na investigação como participante da operação que envolvia a suposta garantia em pedras preciosas. Foi indiciado por induzir investidores a erro.
  • Weysida Maria de Carvalho – segundo o relatório da PF, foi responsável pelo laudo que atribuía valor bilionário às pedras apresentadas como garantia. Foi indiciada por induzir investidores a erro e falsificação de documento particular.

As investigações mostram que parte do dinheiro investido foi usada para pagar despesas pessoais, faturas de cartão de crédito, comissões, advogados e investimentos imobiliários, além de pagamentos a investidores antigos, o que pode indicar uso de novos aportes para manter o esquema em operação, alerta a PF.

Outro ponto levantado foi a criação de três empresas em novembro de 2022, no Acre, após o Ministério Público ajuizar ação civil para dissolver a empresa e cancelar contratos. Para a Polícia Federal, a medida pode ter sido uma tentativa de transferir recursos e evitar bloqueio de bens.

“A XLand iniciou as atividades em 12 de junho de 2019 com um capital social de R$ 80 mil e, em menos de um ano, modificou seu capital social para R$ 22.980.000,00 (vinte e dois milhões, novecentos e oitenta mil reais)”, aponta a PF.

Investimento de Scarpa

Segundo o relatório, parte relevante dos valores investidos por Gustavo Scarpa não foi destinada à aplicação prometida. “Conforme comprovante de envio, é conhecido que Gustavo Henrique Furtado Scarpa realizou o aporte de R$ 3.810.836,42 na XLand através de um crédito realizado em 8 de outubro de 2021 em conta do Banco Original, de titularidade da Soluções Tecnologia Eireli. Nota-se que até o aporte de Gustavo Scarpa a conta se encontrava com saldo negativo”, detalha a PF.

Dinheiro para sócios da empresa e suas mulheres

A PF reuniu dados contidos no extrato de uma conta Bradesco, de titularidade da XLand, para apurar o que foi feito de parte do dinheiro depositado por Scarpa. “Desse modo, é possível apurar que parte do dinheiro aportado por Gustavo (Scarpa) foi enviado para os sócios da XLand e suas esposas, além de possivelmente ter sido utilizado para pagar despesas de cartão de crédito, despesas com advogados e comissão aos assessores”, diz a PF.

Aportes de Mayke

A investigação identificou um aporte de R$ 100 mil feito por Mayke Rocha de Oliveira em 13 de abril de 2020 para uma conta da XLand. A análise das movimentações aponta que, do total investido, apenas R$ 58 mil foram efetivamente utilizados na compra de criptoativos, por meio de transferências para a CBTC, enquanto o restante teve outras destinações.

“É possível concluir que grande parte do dinheiro recebido pela XLand era convertido e mantido em criptoativos”, afirma o delegado Koff.

William ‘Bigode’ X Gustavo Scarpa

O investimento em criptoativos via XLand e a promessa de juros bem acima dos oferecidos pelo mercado, provocou um atrito público entre os dois atletas que, à época, jogavam pelo Palmeiras. Foi Bigode quem ‘apresentou’ a seu colega da equipe esmeraldina o investimento como ótima oportunidade de negócio.

De acordo com os relatos dos atletas, a XLand teria recebido os valores para aplicação em criptoativos, mas não devolveu o dinheiro quando solicitado. Além da XLand, os jogadores – Scarpa e Mayke – processaram a WLJC, empresa de gestão de capital que tinha Bigode como sócio e que prestava serviços a jogadores de futebol, por possível responsabilidade na intermediação dos investimentos.

Áudios divulgados na ocasião revelam conversas entre Scarpa e Bigode antes do colapso do investimento. Em uma gravação, Willian Bigode afirma que tinha conhecimento sobre a XLand e faz referências à ética e à confiança na empresa, embora tenha dito que não tinha relação com outras empresas ligadas ao negócio.

Depois, quando Scarpa já enfrentava dificuldades para reaver os valores investidos, ele avisou Bigode que seu advogado havia recomendado o registro de um boletim de ocorrência na Polícia, informando que mencionaria a empresa WLJC, da qual o atacante era sócio.

Em resposta, Willian Bigode afirmou que a situação já não era mais uma questão de confiança e que restava “orar”, segundo o conteúdo dos áudios divulgados. Scarpa levou à Justiça um documento com cerca de 250 páginas de conversas entre ele e o então colega de time.

Inicialmente, Bigode negou as acusações e declarou publicamente que também foi vítima de um golpe da operadora de criptomoedas.

Fonte: Estadão

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