Uma investigação interna do Banco Central (BC) concluiu que Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária, simulou dois contratos no valor total de R$ 4 milhões com um advogado ligado ao Banco Master. Segundo a apuração, os contratos foram utilizados para o recebimento de propina.



O relatório sigiloso da comissão de sindicância patrimonial do BC, encerrado em março, aponta que os contratos foram firmados com a Varajo Consultoria, empresa de Leonardo Palhares. Palhares é apontado pela PolÃcia Federal como um dos operadores de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
Em um dos contratos, Santana recebeu R$ 2 milhões por um estudo de 50 páginas sobre educação financeira. O trabalho, composto por resumos de artigos acadêmicos e entrevistas de terceiros, focava em conectar jovens de comunidades periféricas ao mercado financeiro. A comissão considerou o resultado sem produção autoral relevante e sem referência ao nome do ex-chefe de supervisão.
Procuradores do BC consideraram “pouco crÃvel” o pagamento milionário por um material que poderia ser facilmente produzido com inteligência artificial ou por estudantes a baixo custo. A comissão também destacou a falta de experiência e conhecimento de Santana na área, tornando a remuneração incompatÃvel.
O segundo contrato visava complementar o estudo e realizar um ciclo de palestras para o projeto “Jovens Potentes”. Santana alegou ter sido contratado para implementar o projeto, com a criação de uma logomarca, perfis em redes sociais e divulgação. No entanto, o conteúdo com melhor desempenho no Instagram obteve apenas 65 curtidas, e um webinário teve a adesão de 20 pessoas.
A sindicância apontou que o servidor “sequer tinha domÃnio ou noção exata do próprio objeto do contrato”, indicando uma manobra para “esquentar” o recebimento de recursos. Os contratos foram considerados mal elaborados e os produtos entregues sem conexão com o compromisso firmado, configurando indÃcios de negócio simulado para pagamento ilÃcito.
A Varajo Consultoria, com capital social de R$ 10 mil e sede em um coworking, apresentava circunstâncias incompatÃveis com a contratação de um projeto de R$ 4 milhões. Palhares também comanda a Super Empreendimentos, investigada pela PF por suspeita de servir de canal de pagamentos pelo Master a agentes públicos.
Santana atuou como chefe do Departamento de Supervisão Bancária de 2019 a 2026, lidando diretamente com informações de instituições bancárias, o que gerou um conflito de interesses. Ele possuÃa poder de influência e acesso a informações privilegiadas sobre o Banco Master e outras instituições.
A comissão ressaltou que Santana não consultou a Comissão de Ética do BC, mesmo tendo sido membro do comitê por mais de três anos, perÃodo em que já haviam sido detectadas irregularidades no caso Master. Em seu depoimento, Santana afirmou ter encerrado a prestação de serviços ao saber da relação de Palhares com a instituição supervisionada.
As conclusões da sindicância levaram à proposta de instauração de processo administrativo disciplinar contra Santana na Controladoria-Geral da União (CGU). Os indÃcios apontam para enriquecimento ilÃcito, recebimento de propina, corrupção e improbidade administrativa. Santana já foi submetido a medidas cautelares, como suspensão do exercÃcio de função pública e proibição de acesso ao BC.
Fonte: UOL