As negociações entre Estados Unidos e Irã em Islamabad, que visavam testar a possibilidade de um cessar-fogo duradouro, terminaram sem acordo. Apesar da falta de um pacto, os canais diplomáticos permanecem abertos até o fim do cessar-fogo temporário em 22 de abril, com o Paquistão incentivando ambas as partes a manterem a trégua.






A oferta americana, descrita como a “última proposta” pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, foi considerada “irrazoável” e “excessiva” por autoridades iranianas. Embora persista uma diferença significativa entre Washington e Teerã, a pressão interna no Irã também desempenha um papel crucial.
Abertura pragmática, mas sem avanço
Relatos públicos sobre os detalhes da proposta americana são fragmentados e disputados. Um parlamentar iraniano alegou que Washington exigiu participação nas receitas do Estreito de Ormuz, a remoção de todo o urânio enriquecido a 60% e uma paralisação de 20 anos no enriquecimento de urânio iraniano. Essas alegações não foram verificadas independentemente, mas indicam a rápida reação dos linha-dura em Teerã para enquadrar a posição dos EUA como maximalista e humilhante.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, adotou um tom mais moderado, afirmando que o Irã iniciou as conversas com “boa vontade”, mas que a desconfiança histórica impede um acordo. Ele sugeriu que cabe a Washington conquistar a confiança iraniana.
As posições contrastantes revelam prioridades distintas dentro do campo iraniano: uma facção busca manter a porta da diplomacia aberta, enquanto outra considera que qualquer acordo teria um custo político muito alto.
A pressão real está dentro do Irã
O fracasso das negociações é uma má notícia para a população iraniana, cujo país e infraestrutura foram severamente afetados por bombardeios e ataques aéreos. Um morador de Teerã relatou que a empresa onde trabalhava, ligada à Mobarakeh Steel, foi atingida e fechada, resultando em demissões.
Outro residente descreveu um colapso econômico mais profundo, com centenas de milhares de desempregados e dificuldades para adquirir bens básicos. A crise econômica, que já havia alimentado grandes protestos no início do ano, foi exacerbada pela interrupção da internet desde 28 de fevereiro, impactando inúmeros empregos e a vida familiar.
A sociedade iraniana enfrenta uma profunda crise econômica, política e social. Essa instabilidade, somada às manifestações antigovernamentais, pode levar o regime a manter os canais diplomáticos abertos e retornar à mesa de negociações, apesar do poder coercitivo que ainda detém.
Um acordo ainda é possível?
Apesar do revés em Islamabad, alguns mantêm a esperança de que os esforços diplomáticos resultem em um desfecho significativo. A ativista política Nazila Golestan argumenta que uma guerra prolongada não beneficia nem o regime isolado de Teerã, nem o povo iraniano, cujas cidades e infraestruturas foram danificadas.
Golestan aponta que o principal obstáculo não é apenas um acordo entre Irã e Estados Unidos, mas a influência de Israel e agendas regionais conflitantes que podem complicar os esforços de paz.
Que poder de barganha Teerã ainda tem?
Embora o Irã ainda possua cartas, como ameaças sobre o Estreito de Ormuz, a guerra enfraqueceu sua posição. A opção de fechar o estreito ou atacar navios tornou-se ainda mais arriscada.
Pouco após o fim das conversas em Islamabad, o presidente Donald Trump anunciou um bloqueio naval americano aos portos iranianos. A retórica escalatória de Trump, horas após o término das negociações, evidencia a delicadeza do momento para o Irã.
O cessar-fogo ainda se mantém, e nenhuma das partes parece disposta a fechar a porta para futuras conversas. No entanto, dentro do Irã, a população mede os eventos não apenas em termos de estratégia ou prestígio, mas em empregos perdidos, aumento de preços, fechamento de fábricas e o temor de que o fracasso da diplomacia possa levar a um conflito ainda mais difícil de sobreviver.
Fonte: Dw