O governo e o setor bancário apresentaram divergências sobre o canal de acesso às garantias do novo crédito consignado privado. Enquanto o governo defende o uso do aplicativo da Carteira de Trabalho Digital (CTPS) para acessar garantias como parte do saldo do FGTS, os bancos preferem que essas garantias também possam ser acessadas quando o crédito é originado em seus próprios canais.
A tensão foi evidenciada em um debate com a participação do CEO da Dataprev, Rodrigo Assumpção, e do presidente da Febraban, Isaac Sidney. Ambos elogiaram a linha de crédito, que já movimentou mais de R$ 120 bilhões para 9,5 milhões de trabalhadores, e os esforços da Dataprev na criação dos sistemas necessários.
Assumpção expressou a expectativa do governo por maior competição e taxas de juros mais baixas, criticando o patamar atual considerado “excessivamente confortável” para os credores. Ele apontou que a queda de juros esperada após a implementação de melhorias, como a portabilidade, não se concretizou.
Sidney, por outro lado, argumentou que o novo consignado privado já resultou em migração de linhas mais caras para esta modalidade, com taxas de juros mais baixas e aumento de 112% nas concessões para trabalhadores com renda de até quatro salários mínimos. Ele também mencionou que a inadimplência por problemas operacionais, e não por capacidade de pagamento, ainda é elevada.
O CEO do PicPay, Eduardo Chedid, acrescentou que o perfil dos primeiros tomadores, que necessitavam mais do crédito e apresentavam maior risco, também influencia a taxa de juros. Assumpção, no entanto, manteve a posição, afirmando que o governo avalia os juros de forma ponderada e que o patamar atual se estabilizou e começou a subir ligeiramente.
A Dataprev planeja homologar em maio os sistemas para uso da garantia do FGTS, com testes bancários em junho. O próximo passo é vincular o empréstimo ao vínculo empregatício, permitindo que a averbação acompanhe o cliente em caso de mudança de empresa. Assumpção reiterou que o acesso às garantias do FGTS será feito pela CTPS Digital para tornar a competição mais explícita para o cliente, mesmo que os bancos já realizem 70% das novas originações por seus canais próprios.
Sidney alertou contra a tabelagem de juros pelo governo, citando exemplos negativos no consignado INSS e na antecipação do saque-aniversário do FGTS. Ele defendeu que abusos devem ser combatidos por órgãos de fiscalização como Senacom e Procon.
Fonte: Globo