Em 2023, 94% das mortes por câncer infantil ocorreram em países de baixa e média renda. Os dados são de uma análise publicada na revista médica The Lancet, que registrou cerca de 377 mil novos casos em pessoas de até 19 anos e aproximadamente 144 mil mortes no ano.



O estudo revela que países de alta renda apresentam as maiores taxas de incidência por habitante, mas as menores taxas de mortalidade. Em volume absoluto, contudo, as nações de baixa e média renda concentram 85% dos novos casos e 94% das mortes, reflexo de populações maiores e sistemas de detecção mais precários.
A pesquisa, que integra o Global Burden of Disease (GBD), sistema global de monitoramento de doenças, abrange o período de 1990 a 2023. O Brasil é classificado como nação de renda média-alta.
O que você precisa saber
- Globalmente, as mortes por câncer infantil caíram 27% entre 1990 e 2023, de 197 mil para 144 mil.
- Na região africana da OMS, os óbitos por câncer infantil subiram 55,6% no mesmo período.
- A sobrevida em cinco anos ultrapassa 80% em países de alta renda, mas não chega a 20% em alguns países de baixa renda.
Barreiras no tratamento infantil
Os pesquisadores identificam três barreiras principais para o tratamento do câncer infantil em países de baixa e média renda: diagnóstico tardio, falta de acesso a tratamentos e ausência de cuidados de suporte. O diagnóstico tardio é agravado pela escassez de registros de câncer e sistemas de vigilância.
O acesso a tratamentos é limitado pela falta de infraestrutura e pela ausência de protocolos adaptados à realidade local. Cuidados de suporte, como controle da dor e acompanhamento psicológico, são frequentemente inexistentes nesses contextos.
Desigualdade no acesso e avanços
Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), destaca que o avanço científico, por si só, não garante acesso às terapias. É preciso financiamento e uma rede organizada que inclua suspeição precoce, confirmação diagnóstica rápida, patologia de qualidade, imagem, cirurgia pediátrica especializada, quimioterapia, radioterapia e seguimento de longo prazo.
A Iniciativa Global para o Câncer Infantil (GICC), lançada pela OMS em 2018, estabelece a meta de alcançar pelo menos 60% de sobrevida global até 2030. O Brasil apresenta um perfil epidemiológico similar ao dos países desenvolvidos, mas convive com desigualdades regionais e atrasos no diagnóstico.
O tratamento no SUS está disponível e alguns centros públicos possuem preparo técnico superior a muitos centros privados. O grande desafio brasileiro é a heterogeneidade do acesso e as dificuldades de financiamento.
Fonte: UOL