Estudos brasileiros testam biomarcadores para diagnóstico de câncer

Estudos brasileiros premiados testam biomarcadores em fezes e sangue para melhorar diagnóstico e prever resposta a tratamentos de câncer colorretal e do colo do útero.

Dois estudos brasileiros premiados pelo Prêmio Octavio Frias de Oliveira avançam na validação clínica de biomarcadores que podem tornar mais precisos o rastreamento do câncer colorretal e a previsão de resposta ao tratamento do câncer do colo do útero.

No Hospital de Amor de Barretos, uma pesquisa investiga se o perfil de bactérias nas fezes pode ajudar a identificar pacientes de maior risco e priorizar colonoscopias no rastreamento do câncer colorretal. No Einstein Hospital Israelita, outro estudo analisa biomarcadores sanguíneos capazes de prever a resposta à quimioterapia e radioterapia em pacientes com câncer do colo do útero.

Os dois trabalhos foram premiados nos últimos dois anos pelo prêmio do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), realizado em parceria com a Folha. As inscrições para a 17ª edição estão abertas até 8 de maio nas categorias Pesquisa em Oncologia e Inovação Tecnológica em Oncologia.

Rastreamento do câncer colorretal em Barretos e Bebedouro

O estudo do Hospital de Amor avalia o uso de biomarcadores bacterianos no rastreamento do câncer colorretal no interior de São Paulo. A pesquisa envolve participantes de Barretos e Bebedouro recrutados em unidades básicas de saúde dos municípios e na unidade de prevenção do Hospital de Amor.

O câncer colorretal (cólon e reto) deve se manter, entre 2026 e 2028, como o terceiro tipo mais incidente no Brasil, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer), com estimativa de 53,8 mil novos casos por ano. Em 2023, foram registrados 23,9 mil óbitos.

Na primeira fase do estudo, premiado em 2025, os pesquisadores identificaram a bactéria Fusobacterium nucleatum como possível biomarcador associado a lesões precursoras e ao câncer colorretal. A detecção da bactéria em amostras de fezes, associada ao teste imunológico fecal (FIT), que identifica sangue oculto nas fezes, pode ajudar a definir prioridades na fila de colonoscopias.

O modelo atual utiliza o FIT como teste inicial antes da colonoscopia. Quando positivo, o paciente é encaminhado ao exame. Contudo, a baixa especificidade do FIT dificulta a distinção entre casos realmente relacionados ao câncer, sobrecarregando a fila de colonoscopias, segundo os pesquisadores.

O projeto entra agora na fase 2, de validação em maior escala de um modelo que usa biomarcadores bacterianos para identificar pacientes de maior risco, além de buscar um conjunto mais amplo de bactérias associadas ao desenvolvimento do câncer. Serão analisadas cerca de 1.500 amostras.

Segundo Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor e coordenador do estudo, a proposta não altera a indicação da colonoscopia, mas reorganiza a prioridade no fluxo de atendimento. Quem tiver sangue oculto e presença da bactéria será chamado primeiro.

O pesquisador também destaca o potencial prognóstico da bactéria, possivelmente associada a formas mais agressivas da doença. No Brasil, o rastreamento do câncer colorretal ainda não está estruturado como um programa nacional no SUS (Sistema Único de Saúde).

Biomarcadores para prever resposta ao tratamento

Outro estudo premiado pelo Icesp, em 2024, investiga por que pacientes com câncer do colo do útero avançado respondem de forma diferente à quimiorradioterapia, tratamento padrão nesses casos.

A pesquisa é liderada por Kenneth Gollob, do Centro de Pesquisa em Imuno-oncologia do Einstein Hospital Israelita, e analisa o papel do sistema imunológico nos desfechos da doença. Os resultados iniciais mostram que as participantes que não responderam apresentavam uma resposta imune desorganizada, pouco eficaz no controle do tumor.

Segundo Gollob, trata-se de uma inflamação desregulada. A partir desses dados, os pesquisadores identificaram um conjunto de biomarcadores sanguíneos capazes de prever a resposta à quimiorradioterapia com cerca de 73% de acurácia. Os marcadores podem ser detectados em exames de sangue e, no futuro, auxiliar na decisão clínica antes do início do tratamento.

O estudo está em fase de validação no Einstein, com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo Pesquisa do Estado de São Paulo) e da GSK. Uma nova coorte de pacientes está sendo acompanhada para confirmar os achados na primeira pesquisa.

Para o triênio de 2026 a 2028, o Brasil deve registrar 19,3 mil novos casos de câncer do colo do útero por ano. Em 2023, a doença foi responsável por 7,2 mil óbitos no país, segundo Inca.

Pesquisadores analisam amostras de fezes para rastreamento de câncer colorretal.
Pesquisadores analisam amostras de fezes para rastreamento de câncer colorretal.

Biomarcadores sanguíneos podem prever resposta ao tratamento de câncer do colo do útero.
Biomarcadores sanguíneos podem prever resposta ao tratamento de câncer do colo do útero.

Fonte: UOL

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