Sem conseguir parceiros no sistema financeiro para manter o Credcesta em escala nacional, Augusto Lima, criador do cartão consignado e ex-sócio do Banco Master, busca recursos com investidores para continuar a operação na Bahia por meio de um fundo. A Bahia é o único estado onde o Credcesta mantém exclusividade para trabalhar com esse tipo de produto até 2033.
O Credcesta oferece diversos produtos e serviços, incluindo crédito com desconto em folha de pagamento. Em 2024, chegou a operar em 24 estados e 176 municípios.
Profissionais do setor de consignado explicam que, apesar da abrangência e da marca consolidada, nenhuma instituição financeira deseja enfrentar o risco de reputação associado ao Master e seus acionistas. Sem o suporte de um banco ou fintech, a manutenção da escala na oferta de crédito e a captação de novos clientes tornam-se difíceis, levando à diminuição da operação.
Boa parte das carteiras do Credcesta já foi revendida a outras instituições. À medida que o financiamento original é pago, a instituição detentora da carteira oferece produtos para reter o cliente. O mercado passa por uma reconfiguração nacional.
Fundo de Investimento em Direitos Creditórios
Na Bahia, o Credcesta tem exclusividade até 2033. Sem parceria bancária, Lima tentará captar recursos de investidores para manter o negócio. A proposta é montar um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) com aporte inicial de R$ 500 milhões de investidores institucionais. Para operar em nível nacional, seria necessário um aporte de, no mínimo, R$ 2 bilhões. Lima almeja captar R$ 300 milhões por mês.
A estratégia visa ganhar tempo para, após a fase aguda de investigações do caso Master, retomar a prospecção de parcerias.
A assessoria de imprensa dos advogados de Augusto Lima informou que ele não comentaria a operação.
Histórico e Conexões Políticas
Lima criou o Credcesta a partir de um cartão de compras da rede de supermercados Cesta do Povo, da estatal Ebal, privatizada em 2018. Na época, o governador da Bahia era Rui Costa (PT) e o secretário de Desenvolvimento Econômico era Jaques Wagner. O contrato de privatização manteve a exclusividade por 15 anos para a operação do cartão benefício consignado para servidores do estado.
Em 2018, Lima firmou acordo com o banco de Daniel Vorcaro para viabilizar o Credcesta. Em julho de 2025, obteve aprovação do Banco Central para ficar com o banco Voiter (instituição ligada ao Master, transformada em Banco Pleno), onde manteve a operação do Credcesta.
Em 17 de novembro do ano passado, Lima foi preso na Operação Compliance Zero, junto com Vorcaro e outros executivos do Master, gerando crise de confiança. Em fevereiro deste ano, o Pleno foi liquidado.
O governo do Rio de Janeiro suspendeu a exclusividade do Credcesta no estado no final do ano passado. A Bahia manteve a exclusividade mesmo após a liquidação do Pleno, que cortou o fornecimento de recursos.
Análise do Governo Baiano e Conexões
Executivos do setor de consignado percebem que o governo da Bahia está dando tempo para Lima se organizar, devido aos laços políticos do empresário. Lima mantém contato com políticos de diversos espectros, incluindo figuras históricas do PT.
Documentos da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado apontam repasses de R$ 12 milhões do Master, entre 2022 e 2025, à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora de Jaques Wagner. O senador também aparece na lista com um pagamento de R$ 289 mil como pessoa física.
Wagner afirma que o valor se refere a rendimento de aplicação em conta pessoal e que nunca recebeu pagamento do Master. A BN Financeira declarou ter prestado serviços ao Master mediante nota fiscal.
O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), afirmou que não descarta a suspensão do contrato do Credcesta e aguarda parecer da Procuradoria-Geral do Estado (PGE). Ele indicou que o Banco Central pode definir se entes públicos devem encerrar contratos com o Credcesta.
A PGE informou que os aspectos jurídicos do contrato estão em análise. O ex-ministro Rui Costa evitou opinar, afirmando que cabe ao governo estadual avaliar a pertinência do contrato.



Fonte: UOL