O jornal The New York Times (NYT) afirma ter identificado Adam Back, criptógrafo britânico e CEO da Blockstream, como o criador anônimo do Bitcoin, conhecido pelo pseudônimo Satoshi Nakamoto. A conclusão é resultado de uma investigação de mais de um ano, que combinou análise linguística computacional, rastreamento de arquivos históricos e um confronto direto com Back em El Salvador.
Durante o encontro, Back negou ser Satoshi Nakamoto mais de seis vezes e, após a publicação da reportagem, reiterou sua negação no X, afirmando que, embora não seja Satoshi, foi um dos pioneiros no foco nas implicações sociais positivas da criptografia, privacidade online e dinheiro eletrônico, o que levou ao desenvolvimento do Hashcash e outras ideias.
Roteiro do Bitcoin escrito uma década antes
A tese central do jornal se baseia em um conjunto de postagens feitas por Back entre 1997 e 1999 em listas de discussão dos Cypherpunks. Nessas mensagens, Back teria proposto elementos que viriam a compor o Bitcoin, como moeda eletrônica independente do sistema bancário, distribuída por uma rede de computadores, com emissão controlada por resolução de problemas computacionais e registro público imutável de transações.
O NYT descreve esse histórico como um “roteiro soterrado” para o Bitcoin, elaborado uma década antes de sua criação. Back é também o inventor do Hashcash, sistema de prova de trabalho citado diretamente por Satoshi Nakamoto em seu white paper, publicado em 2008.
Análise de 34 mil usuários
Para identificar Satoshi de forma sistemática, o NYT analisou arquivos de listas de discussão entre 1992 e outubro de 2008, reunindo dados de mais de 34 mil usuários. Após filtrar contas com poucas postagens e excluir quem não discutiu moeda digital, restaram 620 candidatos.
A equipe do jornal aplicou filtros baseados em peculiaridades linguísticas de Satoshi, como o uso de dois espaços entre frases, grafia britânica, confusão entre “it’s” e “its”, uso de “also” ao fim de orações, hifenização irregular e alternância entre grafias britânicas e americanas. Ao final, restou um único nome: Adam Back.
O linguista forense Robert Leonard, da Universidade Hofstra, classificou essas marcas como “indicadores de variação sociolinguística”. Uma análise separada de erros de hifenização mostrou que Back compartilha 67 dos 325 erros identificados no corpus de Satoshi, enquanto o segundo colocado apresentou 38.
Padrão de aparecimento e desaparecimento
O NYT também aponta uma coincidência comportamental: Back, um dos participantes mais ativos nos debates sobre moeda eletrônica nas listas criptográficas por mais de uma década, deixou de comentar o assunto exatamente quando o Bitcoin foi lançado em 2008. Ele voltou a se manifestar publicamente sobre o tema em junho de 2011, seis semanas após a última aparição conhecida de Satoshi.
Em abril de 2013, no mesmo dia em que o criptógrafo Sergio Demian Lerner publicou um texto revelando a Fortuna acumulada por Satoshi, Back criou sua conta no Bitcointalk, fórum oficial da comunidade Bitcoin. Em 2015, durante uma disputa sobre o tamanho dos blocos da rede, um e-mail atribuído a Satoshi defendeu posição idêntica à de Back, com vocabulário semelhante.
Confronto em El Salvador e suposto deslize
Na reunião em El Salvador, acompanhado de executivos de sua empresa, Back disse ao NYT que a coincidência de evidências não provava nada. “Claramente não sou Satoshi, essa é minha posição”, declarou. Quando pressionado sobre sua ausência nas discussões de 2008, respondeu que estava ocupado com trabalho.
O NYT relata ter captado um possível deslize em gravação: ao ouvir uma citação de Satoshi sobre preferir código a palavras, Back teria respondido: “Eu falei bastante para alguém que… não estou dizendo que sou bom com palavras, mas eu realmente tagarelei muito nessas listas.” Back, em e-mail posterior, negou que fosse um deslize.
O que Back não respondeu
O jornal solicitou a Back os metadados de e-mails trocados com Satoshi em 2008, que poderiam indicar a origem das mensagens. Back não respondeu ao pedido. Essa contradição ganha peso com declarações anteriores de Back, onde ele se descreveu como “uma das primeiras pessoas no Bitcoin” e afirmou ter sido o primeiro a receber um e-mail de Satoshi, ao mesmo tempo em que nega ser o criador.
Os limites da investigação
O NYT reconhece que a evidência reunida é circunstancial. A análise estilométrica formal, conduzida pelo linguista computacional Florian Cafiero, apontou Back como o candidato com escrita mais próxima à de Satoshi, mas o resultado foi considerado inconclusivo pelo especialista, com Hal Finney, programador americano, ficando em segundo lugar com diferença mínima.
A única prova definitiva, segundo o jornal, seria Satoshi mover parte de seus bitcoins usando uma chave privada associada aos primeiros blocos minerados. O estoque de Satoshi, avaliado em cerca de US$ 73 bilhões, nunca foi movimentado.
Fonte: Infomoney