A Espanha registra um abandono escolar precoce de 12,8%, um índice que, apesar de ser o menor da série histórica, ainda posiciona o país entre os que apresentam as maiores taxas na União Europeia, longe da meta comunitária de menos de 9% até 2030. A socióloga Aina Tarabini, da Universitat Autònoma de Barcelona, explica que a melhora estatística não conta toda a história, pois o abandono é apenas a parte visível de desigualdades sociais mais profundas.
O que o indicador de abandono escolar realmente mede?
Tarabini ressalta que o abandono escolar não é um evento isolado, mas o resultado de um processo prolongado. Sinais como repetição de ano, absentismo e dificuldades na transição para a educação pós-obrigatória indicam problemas acumulados ao longo do tempo. O indicador, por si só, captura apenas uma fração do problema, omitindo processos de exclusão educativa onde estudantes permanecem no sistema, mas não participam ativamente da aprendizagem.
Fatores que levam à desvinculação do sistema educativo
A desigualdade social é um fator central na desvinculação progressiva do sistema educativo. Condições de vida, níveis de pobreza, exclusão e oportunidades fora da escola, além de diferenças de gênero, influenciam significativamente as trajetórias dos estudantes. O sistema educativo espanhol, ainda segregado, concentra alunos em situações de vulnerabilidade em alguns centros, enquanto outros desfrutam de condições mais favoráveis, impactando diretamente o percurso educacional.
Outros elementos do sistema, como a oferta educativa, o peso dos itinerários e o menor prestígio da Formação Profissional em comparação com outras opções, também desempenham um papel. A orientação, muitas vezes tardia e mais informativa do que de acompanhamento, leva estudantes a escolherem por descarte. A falta de vínculos e a sensação de não pertencer ao ambiente escolar também contribuem para a desvinculação.
O papel do sistema educativo na prevenção
O sistema educativo pode tanto compensar quanto reforçar as desigualdades de partida. A falta de preparo para lidar com a diversidade do alunado e a homogeneidade do ensino secundário fazem com que muitos estudantes não encontrem seu lugar nem vejam conexão entre o aprendizado e seu futuro. O sistema, em muitos casos, consolida dificuldades iniciais em vez de corrigi-las, gerando trajetórias distintas.
A intervenção eficaz exige agir antes e de forma mais sustentada, detectando dificuldades precocemente e ajustando as respostas educativas. Ampliar a escolarização obrigatória até os 18 anos, por si só, não é suficiente se as práticas educativas e a experiência de aprendizado não forem transformadas para garantir que os estudantes encontrem um lugar e possam se desenvolver.
Educação como motor de mobilidade social
A educação continua sendo um elemento crucial para a mobilidade social, mas suas condições de operação mudaram. Não basta apenas o acesso ao sistema; as condições de permanência e as oportunidades futuras são determinantes. O sistema pode reduzir desigualdades, mas também reproduzi-las se não corrigir as diferenças de partida. Além disso, o valor das credenciais educacionais mudou, e um título já não garante, por si só, uma inserção laboral estável.
A manutenção dessa situação acarreta consequências sociais importantes, como a consolidação de desigualdades desde cedo, dificultando o acesso ao emprego, a participação social e as expectativas de futuro. Isso afeta a coesão social, representa uma perda de talento e resulta em uma sociedade menos equitativa, com impactos econômicos significativos. O abandono escolar, portanto, questiona o modelo de sociedade e as oportunidades que se deseja garantir.
Fonte: Elpais