A infecção neonatal pelo vírus herpes simples é uma das condições mais graves que podem afetar recém-nascidos. Nos casos de herpes congênita, a transmissão ocorre durante a gestação ou o parto. Diferentemente das lesões em adultos, a doença é severa em bebês. No Brasil, essa infecção é a principal causa de internações prolongadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais entre as infecções congênitas.
Essa conclusão vem de uma análise do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS), do Hospital Israelita Albert Einstein, publicada na revista Antimicrobial Stewardship & Healthcare Epidemiology. Embora menos frequente que outras infecções congênitas, como a sífilis, a herpes é responsável por 32% da ocupação de leitos de UTI neonatal no Sistema Único de Saúde (SUS) por essa causa.
O tratamento para a herpes congênita também representa um custo significativo para o sistema público, estimado em US$ 444 (R$ 2.256) por paciente, valor consideravelmente maior que o tratamento para toxoplasmose congênita.
A transmissão acontece com mais frequência durante o parto, especialmente se a mãe apresentar lesões ativas. O risco de contágio é maior quando a infecção materna ocorre pela primeira vez na gestação. Em casos de reativação do vírus em mães que já possuíam herpes antes da gravidez, a transmissão é menos comum.
Devido a essa combinação de fatores, a herpes é considerada rara entre as doenças congênitas, afetando em média 1 em cada 20 mil nascidos. No entanto, quando ocorre, é potencialmente grave, podendo levar a manifestações neurológicas e apresentar um risco elevado de morte, conforme explica o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
O vírus pode comprometer diversos órgãos do recém-nascido, como fígado, pulmão e pele, gerando sintomas variados. Sinais como lesões em bolha na pele, alterações bruscas de temperatura, letargia, irritabilidade, dificuldade de alimentação, convulsões e icterícia devem alertar os responsáveis.
Infecções congênitas em alta no SUS
O estudo analisou dados de internações por infecções congênitas no SUS entre 2008 e 2024, totalizando 194 mil hospitalizações de crianças com menos de 12 meses por sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola e herpes.
A rubéola foi a única doença com redução de casos, chegando à eliminação da transmissão vertical a partir de 2010, graças à vacinação. As demais infecções apresentaram aumentos expressivos, com uma elevação comparativa de 394% nas hospitalizações no período.
O obstetra Eduardo Felix Santana, orientador do estudo, destaca que o aumento de casos de doenças congênitas as tornou um problema de saúde pública relevante, exigindo revisão de políticas e melhoria na detecção e cuidados materno-infantis.
Gustavo Yano Callado, idealizador da pesquisa, sugere que o aumento pode refletir tanto o crescimento das doenças quanto a melhoria nos protocolos de rastreio e diagnóstico.
A pesquisa também aponta disparidades no acesso ao tratamento, com muitas internações ocorrendo longe do município de residência devido à falta de leitos de UTI neonatal. Bebês das regiões Norte e Centro-Oeste são os mais afetados por essa carência.
Eduardo Santana ressalta a existência de “vazios assistenciais” no país, impactando negativamente o prognóstico dos bebês.


Fonte: UOL