Leopoldo Calvo-Sotelo, que foi o segundo presidente do governo no período democrático espanhol após a ditadura, completaria cem anos em 14 de abril. Em tempos de questionamentos sobre a importância histórica da transição da espanha da ditadura para a democracia, Calvo-Sotelo se destaca como um arquétipo das gerações que restauraram a liberdade e a normalidade democrática no país.
Em entrevista concedida ao jornal Cinco Dias, Calvo-Sotelo demonstrou notável cultura, entusiasmo e convicção no futuro europeu da Espanha. Sua atuação como ministro para as Relações com as Comunidades Europeias e, posteriormente, como vice-presidente econômico e presidente do governo, ocorreu em um contexto de intensa atividade política e econômica.
Trajetória Empresarial
Inicialmente engenheiro, Calvo-Sotelo teve sua primeira experiência profissional na fundação e gestão da empresa Perlofil. Posteriormente, assumiu a direção da Unión Española de Explosivos, onde aplicou sua experiência europeia para negociar a fusão com Minas de Rio Tinto. Sua capacidade de integração ficou evidente ao convidar Miguel Boyer, então militante do PSOE na ilegalidade, para dirigir o planejamento do novo grupo.
Início na Política
A política sempre foi uma preocupação precoce para Calvo-Sotelo. Seu temperamento e convicções o levaram à ação política desde jovem, aprofundados por leituras e uma curiosidade inesgotável. Seu ativismo político juvenil e universitário se manifestou em um período desafiador. No final do regime de Franco, Calvo-Sotelo foi nomeado procurador em Cortes, mas encontrou pouca receptividade às suas ideias sobre uma saída democrática. Mais tarde, aceitou a presidência da Renfe, cargo que deixou por incompatibilidade com a visão do ministro que o nomeou.
Presidência do Governo
A chegada de Adolfo Suárez à presidência do governo impulsionou Calvo-Sotelo a se dedicar à criação da Unión de Centro Democrático (UCD), um partido que buscava a integração de diversos grupos. Sob essa sigla, ele atuou como ministro, vice-presidente e presidente do governo em circunstâncias políticas, sociais e econômicas extremamente complexas.
Legado na Economia
A economia da Transição foi marcada por uma crise severa. Calvo-Sotelo utilizou sua experiência empresarial e capacidade de negociação para gerenciar a crise, buscando mitigar seus efeitos com realismo, pragmatismo e preocupação social, através de acordos entre sindicatos, empresários e o governo. Foi descrito como um keynesiano confrontado pela realidade.
Calvo-Sotelo trabalhou intensamente pela consolidação da democracia contra a reação e o aventureirismo. A Espanha atual, integrada à União Europeia, é fruto de esforços e sacrifícios para superar o atraso político e social. A transição democrática, apesar da crise econômica e do terrorismo, foi um processo árduo. O legado de Calvo-Sotelo e de todos que lutaram pela liberdade é fundamental para entender o presente.
Fonte: Cincodias