A indústria automotiva europeia atravessa um período desafiador, marcado por mudanças significativas no modelo de negócio e na dinâmica de produção e inovação. Oliver Blume, CEO do grupo Volkswagen, destacou que o centro de gravidade do setor tem se deslocado da Europa para a China, invertendo o fluxo tradicional de desenvolvimento e exportação.
As regulamentações, as novas expectativas dos clientes e a intensa concorrência internacional forçaram fabricantes europeus a adaptar seus processos, trazendo para a Europa inovações desenvolvidas na China, onde parcerias com empresas locais como SAIC Motor e Xpeng são cruciais.
O ano de 2025 foi particularmente difícil para os fabricantes de automóveis europeus, com a maioria registrando quedas expressivas nos lucros. A política arancelária instável do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impactou negativamente as exportações de carros e componentes, especialmente para as plantas alemãs. Embora a Espanha não exporte carros diretamente para os EUA, o país é afetado pela exportação de peças.
A política de Trump, que favorecia veículos a combustão nos EUA, também afetou montadoras americanas e o consórcio europeu-americano Stellantis. Empresas como Ford e Stellantis registraram perdas bilionárias ao reverterem estratégias de eletrificação e focarem em modelos a combustão. A General Motors, embora com lucros, viu seus resultados despencarem.
Competição Chinesa e Desaceleração Elétrica
Um dos principais argumentos para a reavaliação dos planos de eletrificação por parte dos fabricantes europeus é o ritmo de crescimento do mercado de carros elétricos, que não atende às projeções anteriores. A crescente concorrência internacional e a incerteza geopolítica agravam o cenário, juntamente com a dependência europeia de componentes chave, como baterias.
A Tesla, pioneira na mobilidade elétrica, enfrentou uma queda de 46% em seus lucros em 2025. A empresa agora lida com a forte concorrência da chinesa BYD, que superou a Tesla em vendas globais de veículos elétricos. A BYD tem expandido agressivamente sua presença no mercado europeu, enquanto as vendas da Tesla na região caíram significativamente.
A guerra de preços iniciada pela BYD também afetou seus próprios lucros, mas outras marcas chinesas como Chery, SAIC e Geely apresentaram resultados positivos. Especialistas apontam que os fabricantes chineses possuem vantagens estruturais de custo, integração na cadeia de suprimentos de baterias e capacidade de competir em preço em segmentos sensíveis para o consumidor europeu.
Estratégias Europeias para Recuperar Competitividade
O grupo Renault registrou perdas significativas em 2025, em parte devido a um ajuste contábil relacionado à sua participação na Nissan, que passa por uma reestruturação. A Renault busca emular a agilidade chinesa no desenvolvimento de novos modelos, como o Twingo, desenvolvido em dois anos.
Volkswagen e Mercedes-Benz também viram seus lucros diminuírem, acusando o impacto das tarifas e da concorrência chinesa. As montadoras europeias pedem um ambiente de competição mais equilibrado, focando em aumentar sua própria competitividade em vez de recorrer a protecionismos excessivos.
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) busca maior flexibilidade regulatória, especialmente em normas de emissões, para não perder competitividade. A expectativa é de uma reconversão profunda no setor, favorecendo grupos com escala, tecnologia e flexibilidade industrial.
Recuperação do Mercado e Investimentos em Espanha
As vendas de veículos na Europa continuam abaixo dos níveis pré-pandemia, com uma perda de 2,5 milhões de matriculações. A Espanha, apesar de uma recuperação mais rápida, ainda está longe da média europeia em vendas de elétricos.
Para sustentar o mercado, é crucial recuperar a confiança do comprador e equilibrar os objetivos de eletrificação com a realidade econômica do consumidor, através de continuidade em programas de incentivo como o Plan Moves III e seu sucessor, o Plan Auto+.
A indústria automotiva espanhola, que exporta cerca de 90% de sua produção, tem recebido investimentos significativos em plantas de baterias e na fabricação de veículos elétricos acessíveis. O Plano Espanha Auto 2030 visa impulsionar o setor com metas anuais e incentivos para investimento e compra de elétricos, posicionando a Espanha como um exemplo para a Europa.
Fonte: Elpais