A guerra no Oriente Médio está gerando preocupações significativas para agricultores em todo o mundo, com o potencial de causar um choque nos preços dos alimentos. Um terço das exportações marítimas de fertilizantes provém da região, e a maioria dessas operações foi interrompida devido a bloqueios e tensões. A ureia, o fertilizante mais utilizado globalmente, já registra um aumento de cerca de 70% em seu preço, enquanto a amônia está 39% mais cara.


O cenário de alta nos preços persiste mesmo após um cessar-fogo de duas semanas ter sido acordado, o que levou o Irã a permitir a passagem de navios pelo Estreito de Hormuz. No entanto, o tráfego na importante rota marítima permanece bem abaixo do normal, com aproximadamente 1,9 milhão de toneladas de nutrientes para plantas presas a bordo de 41 navios que não conseguem deixar o golfo. Isso representa 12% de todo o fertilizante exportado pelo estreito em 2024.
Impacto na produção agrícola
O momento é crucial, pois a temporada de plantio já começou em partes do hemisfério norte, e a Índia tem menos de dois meses para iniciar seu plantio. Agricultores em regiões como o Centro-Oeste americano estão optando por culturas que demandam menos nutrientes, como a soja. Aqueles que não podem fazer essa adaptação tendem a usar menos fertilizante, o que resulta em menor produtividade, ou simplesmente reduzem a área plantada.
Mercados de commodities e vulnerabilidade de países pobres
Até o momento, os mercados de commodities alimentares têm mostrado certa contenção. Diferentemente de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia causou um salto de 50% no preço do trigo, a atual guerra no Irã resultou em uma alta de apenas 4% no valor do trigo, com pouca variação desde então. Isso se deve, em parte, às boas colheitas do ano passado e ao fato de que o golfo não é um celeiro como a Ucrânia.
Contudo, os problemas tendem a se acumular. Os preços do trigo estão um quinto abaixo do início de 2022, antes da guerra na Ucrânia, o que diminui a margem dos agricultores para absorver o custo crescente de fertilizantes e combustíveis. Se as colheitas forem interrompidas no segundo semestre, aumentos de preços se tornarão inevitáveis.
Países pobres são particularmente vulneráveis a esse choque nos fertilizantes. Nações como Quênia, Madagascar, Moçambique e Zâmbia dependem em mais de um terço de seus fertilizantes nitrogenados do golfo. Na Ásia, pequenos agricultores utilizam grandes quantidades do produto para maximizar a produção em suas terras. Grandes exportadores de alimentos como Índia e Tailândia obtêm cerca de 35% de seus fertilizantes do golfo, enquanto Bangladesh, que frequentemente importa grãos da Índia, obtém mais da metade de sua necessidade.
Desafios na produção e logística
A logística de fertilizantes é complexa, pois o produto é volumoso, perecível e geralmente comprado apenas quando necessário, o que resulta em poucos estoques de segurança. Isso tem levado a uma corrida por suprimentos. A Índia, por exemplo, está em negociações com produtores na Rússia e China para garantir carregamentos. No entanto, as fábricas russas operam perto da capacidade máxima, com exportações parcialmente suspensas pelo Kremlin, e a China restringe vendas ao exterior para atender sua demanda interna.
A produção interna de fertilizantes também enfrenta obstáculos. O gás natural, que representa mais de dois terços dos custos de produção, está quase 70% mais caro. A maior fábrica de amônia da Eslováquia reduziu sua produção em 15%. Na Índia, as fábricas de fertilizantes operam com 70% do combustível necessário, e em Bangladesh, quatro das cinco fábricas de fertilizantes fecharam devido à dependência de importações do Oriente Médio.
Além do aumento nos preços dos fertilizantes, a disponibilidade de hidrocarbonetos é outro fator de preocupação. O diesel, essencial para colheitadeiras e bombas d’água, também teve seu preço elevado. O polietileno, usado em embalagens, está com o preço mais alto desde 2022, o que eleva os custos para os agricultores.
As estimativas indicam que os preços dos alimentos podem subir mais de 10% em países como Índia, Paquistão, Sri Lanka e Taiwan, e disparar 30% na Zâmbia. Uma guerra prolongada pode aumentar o número de pessoas em fome aguda em 45 milhões, totalizando 363 milhões globalmente.
Fonte: UOL