O controle das rotas marítimas é um fator determinante no poder global, uma lição histórica que a geopolítica contemporânea reforça. Sete passagens geográficas críticas — Ormuz, Bab-el-Mandeb, Suez, Malaca, Bósforo, Gibraltar e o Canal do Panamá — são essenciais para o comércio mundial, respondendo por cerca de 80% do volume transportado por mar. Uma crise em qualquer um desses pontos pode gerar impactos em cascata nos mercados globais de energia, alimentos e insumos.
Para o Brasil, a vulnerabilidade nesses gargalos é uma questão de estratégia nacional. O país, que em 2025 exportou US$ 170 bilhões em produtos do agronegócio, depende criticamente desses pontos para a importação de fertilizantes e a exportação de suas commodities. A recente crise no Estreito de Ormuz, iniciada em março de 2026, evidenciou a fragilidade da cadeia de suprimentos brasileira, especialmente em relação a derivados de petróleo e fertilizantes.
Vulnerabilidade em Derivados de Petróleo
Apesar de ser uma potência na produção de petróleo bruto, o Brasil é deficitário em derivados como diesel, GLP e querosene de aviação. As importações de diesel, por exemplo, respondem por cerca de 25% do consumo interno, sendo este combustível essencial para as operações do agronegócio. A dependência externa em derivados estratégicos expõe o país a choques de oferta e aumento de custos.
Fertilizantes: Um Calcanhar de Aquiles Existencial
A dependência brasileira de fertilizantes importados, que atinge 85% do consumo, torna o país extremamente vulnerável a interrupções no fornecimento. O Estreito de Ormuz, por onde transita um terço do comércio global de fertilizantes, é um ponto crítico. O fechamento do estreito, somado às restrições de exportação de Rússia e China e à destruição de infraestrutura produtiva no Oriente Médio, elevou os preços da ureia e do enxofre, insumo vital para fertilizantes fosfatados, colocando em risco o abastecimento para a safra 2026/2027.
Impactos Múltiplos no Agronegócio e Segurança Energética
A crise nos gargalos marítimos afeta o agronegócio brasileiro tanto na oferta quanto na demanda. O aumento de fretes e seguros marítimos eleva os custos de exportação. Por outro lado, a alta persistente nos preços de gasolina e diesel beneficia os biocombustíveis nacionais, como o etanol e o biodiesel. O Brasil possui uma vantagem estrutural por sua matriz energética parcialmente renovável e doméstica, que atua como um amortecedor contra choques geopolíticos.
O Novo Normal Geopolítico
A recorrência de crises geopolíticas externas, como a guerra na Ucrânia em 2022 e a atual situação em Ormuz, demonstra que as turbulências nas cadeias globais de abastecimento se tornaram a nova normalidade. A estratégia de segurança de abastecimento do Brasil precisa ser revista, com maior diversificação de fornecedores, produção doméstica e criação de reservas estratégicas, especialmente para fertilizantes. O agronegócio, que alimenta bilhões, não pode permanecer com seu calcanhar de Aquiles exposto a cada nova turbulência global.
Fonte: Estadão