O Grupo Votorantim segue a estratégia de transformação de seu portfólio, migrando de um conglomerado industrial para uma companhia de investimentos diversificados. Novos negócios, como os de farmacêutica e infraestrutura, ganharam destaque, enquanto a exposição em commodities foi reduzida.
No início do ano, a companhia firmou acordo para a venda da produtora de alumínio CBA, maior fabricante do país, criada pelo grupo em 1955. Em linha com a redução de presença em mercados emergentes, no ano passado, a Votorantim se desfez de ativos de cimento na Tunísia e Marrocos. O foco geográfico, além do Brasil, são países com moeda forte: Estados Unidos, Canadá e Espanha.
Controlado pela família Ermírio de Moraes, o grupo encerrou o ano com um caixa consolidado de R$ 15 bilhões. Apresentou ainda alavancagem financeira baixa e lucro líquido de R$ 4,8 bilhões, um aumento de quase 500% em relação a 2024. Cerca de 60% desse ganho foi proveniente do negócio de cimento.
Este caixa será complementado nos próximos meses com R$ 4,7 bilhões adicionais da venda do controle da CBA, operação prevista para ser concluída entre o segundo e o terceiro trimestres. O negócio foi fechado com a multinacional chinesa Chalco e a australiana Rio Tinto.
Onde alocar o capital?
A principal questão é onde a Votorantim planeja alocar os cerca de R$ 20 bilhões disponíveis. A direção da companhia afirma que, no momento, não há grandes aquisições em vista para recompor o portfólio. “Vamos fazer a alocação do caixa com muita disciplina”, declarou o CEO do grupo, João Schmidt.
Schmidt ressalta que há diversos investimentos em curso nos negócios atuais. Um exemplo é o reforço na área farmacêutica, com a disposição de investir até R$ 1 bilhão em aumento de capital da Hypera Pharma. A participação acionária, que era de 11%, pode subir para entre 13% e 14%, aumentando a influência no bloco de acionistas controladores.
O aumento de capital da Hypera Pharma, aprovado em R$ 1,5 bilhão, visa fortalecer sua estrutura de capital. A empresa, que registrou receita líquida de R$ 7,7 bilhões e lucro de R$ 1,19 bilhão no ano passado, possui alavancagem financeira elevada, com a relação dívida líquida sobre Ebitda em 3,7 vezes.
Investimentos em cimento e expansão imobiliária
Outras frentes de investimento incluem o setor de cimento, com um programa de R$ 5 bilhões em andamento na Votorantim Cimentos, focado no Brasil. “Temos um balanço forte, liquidez e disciplina. Teremos oportunidades de alocar capital nos negócios”, acrescentou o executivo.
Schmidt destaca que os R$ 15 bilhões em caixa no início do ano representam a maior posição histórica do grupo, com R$ 7,7 bilhões na holding VSA, que não possui endividamento. A alavancagem financeira consolidada do grupo encerrou o ano em 1,01 vez, com dívida líquida de R$ 11,7 bilhões.
A Altre, empresa do ramo imobiliário, busca novos ativos nos Estados Unidos em segmentos como residencial multifamiliar, galpões logísticos e escritórios corporativos. Estão previstos pelo menos mais R$ 2 bilhões em equity e crédito para esta expansão no mercado americano. A empresa, criada em 2021, já tem R$ 3 bilhões comprometidos no Brasil e EUA.
Novos sócios e parcerias estratégicas
A Citrosuco, produtora de suco de laranja, ganhou um novo sócio, o fundo PSP Investments, um dos maiores investidores institucionais do Canadá. O fundo aportará um “valor significativo” na empresa, dividindo a gestão com os atuais sócios — Votorantim e família Fischer. O fechamento da operação definirá a participação do PSP.
O fundo canadense possui experiência em agricultura e florestas, com foco de longo prazo, e visa reforçar o capital para expansão e diversificação. A Votorantim tem histórico de parcerias com fundos canadenses, como o CPPIB Investments na Auren Energia e o La Caisse (ex-CDPQ) no negócio de cimento nos EUA e Canadá.
A companhia também está preparada para um possível aumento de participação na Motiva (ex-CCR), caso ocorra a venda de ações da Mover Participações (ex-Camargo Corrêa) pelo Bradesco BBI. Os atuais sócios do bloco de controle, incluindo Itaúsa e Soares Penido, possuem direito de preferência sobre o ativo.
Resultados consolidados de 2025
Consolidando cinco empresas controladas — Votorantim Cimentos, Nexa Resources, Altre, Acerbrag e Reservas Votorantim —, o grupo reportou receita líquida consolidada de R$ 47,6 bilhões em 2025. A CBA, vendida em janeiro, já não compôs essas demonstrações financeiras, sendo classificada como ativo mantido para venda.
Os resultados da Auren Energia, Motiva, Banco BV, Citrosuco, Hypera e 23S Capital foram registrados por equivalência patrimonial, totalizando R$ 1,4 bilhão no balanço da Votorantim. A receita do grupo cresceu 9%, e o Ebitda subiu 10%, para R$ 11,5 bilhões, impulsionados pelo forte desempenho operacional e crescimento das empresas do portfólio.
A Votorantim Cimentos respondeu por 62% da receita consolidada e do lucro líquido do grupo, enquanto a Nexa (zinco, chumbo, cobre e prata) contribuiu com aproximadamente 32%. O Banco BV apresentou seu segundo ano de desempenho recorde, com lucro líquido de R$ 1,9 bilhão. Por outro lado, a Auren Energia fechou o ano com prejuízo de R$ 558 milhões.
Fonte: Estadão