Trump ameaça bloquear Ormuz e petróleo sobe para US$ 100

Trump ameaça bloquear o Estreito de Ormuz, impulsionando o preço do petróleo para acima de US$ 100 e reavivando temores de inflação e instabilidade nos mercados globais.

As esperanças de uma recuperação prolongada dos mercados começam a se abalar. Após o fim das negociações entre Washington e Teerã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que bloqueará todos os navios que tentarem cruzar o Estreito de Ormuz.

A ruptura do diálogo ameaça abalar os mercados e reativar a busca por ativos de refúgio. Após um alívio efêmero com o cessar-fogo, o petróleo volta a se tensionar. O Brent, referência na Europa, reage com altas superiores a 7% e recupera a cota de US$ 100, arrefecendo as expectativas de que os índices retornem aos níveis pré-conflito.

O petróleo continua cotado cerca de 30% acima dos preços anteriores à guerra, o que mantém vivas as tensões inflacionárias e ameaça desacelerar a economia. A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, já alertou que “não haverá um retorno limpo e ordenado à situação anterior”. O FMI publicará novas projeções que refletirão os primeiros efeitos da guerra.

Atividade no corredor estratégico

Embora a atividade neste corredor estratégico estivesse longe de recuperar os níveis pré-ataques, o Irã permitia o trânsito de embarcações mediante o pagamento de pedágios. Com esse esquema, Teerã engordava seus cofres e facilitava a passagem de navios para aliados como a China. A eventual alteração desse equilíbrio representaria um novo golpe para o mercado energético e reavivaria os temores de uma crise de suprimento. Além do petróleo, o gás também seria afetado, e as pressões inflacionárias voltariam ao centro das negociações.

Nas últimas seis semanas, os investidores aprenderam uma lição clara: bolsas, dívidas e moedas movem-se ao ritmo do preço do petróleo. Cada repique brusco do petróleo foi acompanhado por quedas mais acentuadas em ações e títulos; cada correção para baixo devolveu um pouco de oxigênio aos mercados.

Pressões inflacionistas e eleições

Trump, que criticou os aumentos da inflação durante a presidência de Joe Biden, agora enfrenta o encarecimento dos combustíveis. Embora os Estados Unidos sejam exportadores líquidos de energia, não são imunes às tensões do lado da oferta. Os efeitos da guerra já começam a se infiltrar na economia, com a inflação como principal foco de preocupação. Em março, a taxa anualizada subiu para 3,3%, o nível mais alto em dois anos. Ainda assim, a inflação subjacente avançou 0,2%, abaixo do esperado.

“Os americanos são muito sensíveis ao aumento dos preços e a popularidade de Trump está sendo afetada”, alertam especialistas. Com as eleições de meio de mandato à vista, o republicano enfrenta um teste político crucial, em um momento em que até mesmo parte do núcleo duro do movimento MAGA começa a mostrar sinais de distanciamento.

O maior temor para muitos é que uma inflação persistente force os consumidores a cortar gastos e as empresas a frear projetos de investimento. O resultado seria uma economia mais fraca e piores resultados empresariais, o cenário menos favorável para as bolsas.

Uma nova moderação do preço do petróleo era vista como a chave para consolidar a recuperação e emular o ocorrido há um ano, quando a trégua comercial decretada por Trump impulsionou a renda variável global. Um mês depois, as bolsas haviam recuperado tudo o que perderam após o anúncio das tarifas recíprocas.

A experiência indica que, na abertura dos mercados, os investidores ajustarão posições em bolsa, dívida e moedas à medida que avaliam a credibilidade das novas ameaças. Se o mercado as considerar válidas, é previsível uma queda na renda variável e um repique nas rentabilidades da dívida, ao calor de expectativas de inflação e taxas de juros que voltam a ganhar terreno. Analistas confiam que o Federal Reserve não terá incentivos para modificar as taxas de juros, pois “temos muito mais confiança de que a inflação será transitória desta vez”, explica James Knightley, economista-chefe internacional da ING, “dada a falta de impulso da demanda e o menor poder de precificação das empresas em comparação com 2022”.

A dívida, um dos termômetros mais vigiados pela classe política por sua capacidade de alterar o rumo dos mercados e tensionar governos, volta a desempenhar um papel protagonista. Um contexto de tensões inflacionárias pode levar os investidores a acelerar a venda de títulos e exigir maiores rendimentos para compensar a perda de poder aquisitivo e a expectativa de taxas mais altas. Além de encarecer o financiamento público e pressionar contas já frágeis, os títulos de dez anos —como o americano— servem de referência para fixar o preço de hipotecas, empréstimos e dívida corporativa. Variações leves podem acabar pesando sobre lares e empresas e se traduzir, em última instância, em menor crescimento econômico.

O único ativo que poderia se reforçar com o aumento das tensões no Oriente Médio é o dólar. A moeda verde, que no último ano havia perdido parte de sua condição de ativo refúgio, experimentou uma leve recuperação em março. Dado que a energia é negociada em dólares, o encarecimento do petróleo contribuiu para que a divisa americana se afastasse das mínimas próximas a 1,20 unidades por euro alcançadas em janeiro, quando Trump chegou a ameaçar uma invasão da Groenlândia. Analistas apontam que, enquanto persistirem as tensões no Estreito de Ormuz, o nervosismo dos investidores continuará a apoiar o dólar.

Com a energia como variável decisiva, a semana se apresenta como um teste de resistência para os mercados. Em um cenário ainda frágil, as bolsas continuam buscando certezas em um mundo onde geopolítica e economia voltam a avançar, mais uma vez, de mãos dadas.

Fonte: Cincodias

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