A deterioração das relações internacionais, marcada por conflitos recentes, levanta questionamentos sobre o futuro da ordem mundial baseada em regras. Especialistas apontam para um ponto crítico, onde as normas e instituições estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial enfrentam desafios significativos.






A ordem mundial baseada em regras, definida por um conjunto de normas e instituições para regular as relações internacionais, visava criar um sistema que restringisse o comportamento dos estados. No entanto, sua aplicação prática tem sido marcada por exclusividade e hierarquia, com ações de seus defensores, incluindo os Estados Unidos, frequentemente vistas como hipócritas e prejudiciais a outras nações.
Objetivos e Falhas da Ordem
Criada com o objetivo de promover um mundo mais estável, livre e próspero, a ordem mundial viu o surgimento de instituições como as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio. Contudo, a percepção de que as regras foram construídas pelo Ocidente e beneficiaram principalmente seus aliados, como os países do Sul Global, gerou desconfiança e a sensação de um sistema manipulado.
Exemplos como o Tribunal Penal Internacional (TPI), acusado de focar desproporcionalmente em líderes africanos, ilustram essa crítica. Relatórios indicam que a maioria dos indiciados pelo TPI são africanos, reforçando a percepção de seletividade.
Erosão da Ordem Baseada em Regras
A confiança na ordem baseada em regras tem diminuído na última década. A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e a invasão da Ucrânia em 2022 são exemplos claros de desafios aos princípios de soberania.
Diante desse cenário, diversos cenários futuros são discutidos por acadêmicos de geopolítica.
Cenário 1: Domínio Hemisférico
Um dos cenários prevê o ressurgimento do domínio hemisférico, onde potências como os Estados Unidos poderiam reafirmar sua influência em regiões específicas, seguindo modelos como a Doutrina Monroe. Isso poderia levar a uma divisão do mundo em esferas de influência, com a China fortalecendo seu controle na Ásia e a Rússia atuando livremente na Europa Oriental.
No entanto, esse cenário enfrenta críticas pela potencial resistência de estados soberanos e pela natureza das ações de líderes que podem não priorizar o interesse nacional. Termos como “neorrealismo” descrevem a ascensão de grupos de poder elitistas que moldam a política internacional para benefício próprio.
Cenário 2: Mundo Múltiplo em Vez de Hegemônico
Uma alternativa é um mundo multipolar, ou “múltiplo”, onde não há uma ou poucas potências dominantes. Neste modelo, diversos atores, incluindo potências médias e regionais, além de atores não estatais e sociedade civil, teriam maior protagonismo.
A cooperação ocorreria tanto em nível global quanto regional, com compartilhamento de ideias, conhecimento e adoção de normas comuns. Países como a União Europeia, Indonésia e África do Sul poderiam desempenhar papéis importantes. Embora conflitos e instabilidade persistam, estariam menos atrelados a potências hegemônicas.
Cenário 3: Colapso Total?
O cenário mais sombrio aponta para um colapso total, com o caos e a anarquia substituindo a ordem baseada em regras, possivelmente levando a uma nova guerra global. Contudo, muitos especialistas consideram esse cenário improvável, dada a memória dos custos de conflitos anteriores.
O papel das potências médias é visto como crucial na definição do futuro da ordem mundial. A disposição desses atores em defender os princípios de uma ordem baseada em regras, mesmo diante de custos, pode ser determinante para moldar um novo sistema internacional, não exclusivamente desenhado por potências ocidentais.
Fonte: Dw