Em outubro de 1965, após uma tentativa de golpe fracassada, o exército indonésio e seus aliados iniciaram uma perseguição em massa contra suspeitos de serem comunistas. No entanto, documentos revelam que, já em dezembro de 1964, o governo britânico considerava um “golpe comunista antecipado” como uma solução favorável ao Ocidente, desde que falhasse.





Historiadores apontam essa estratégia como parte de uma tática mais ampla da Guerra Fria. A ideia seria provocar o Partido Comunista da Indonésia (PKI) a agir contra o exército, ou criar essa impressão, para justificar sua repressão.
O que aconteceu em 1965
Na noite de 30 de setembro de 1965, um grupo autodenominado “Movimento 30 de Setembro” sequestrou e matou seis generais do alto escalão indonésio. O então comandante da Reserva Estratégica do Exército, Major-General Suharto, e seus aliados culparam rapidamente o PKI, usando o incidente como pretexto para a perseguição em massa.
Pesquisas históricas posteriores lançaram dúvidas sobre a narrativa de que as mortes dos generais foram um plano comunista. Um documento desclassificado de novembro de 1965 sugere que a ideia do sequestro dos generais pode ter originado fora do PKI.
Washington deu sinal verde ao exército indonésio
O que se seguiu foi uma campanha coordenada contra o PKI, com apoio ocidental. Os Estados Unidos e seus aliados, como Reino Unido e Austrália, forneceram inteligência, assistência militar, financeira e política ao exército indonésio.
Documentos desclassificados sob a Lei de Liberdade de Informação dos EUA comprovam o envolvimento ocidental. Vários mostram que Washington forneceu listas de supostos membros do PKI e ofereceu “assistência onde pudermos”, com o objetivo de “espalhar a história da culpa, traição e brutalidade do PKI”. Segundo historiadores, sem esse encorajamento, a violência não teria atingido a escala que atingiu.
Padrão da Guerra Fria se repete
Guatemala, Cuba, Vietnã e Chile são apenas alguns dos países que sofreram envolvimento direto ou indireto dos EUA durante a Guerra Fria, muitas vezes resultando em décadas de ditaduras ou regimes militares.
Historiadores observam que essas intervenções frequentemente aceleram conflitos sociais e políticos, geram violência massiva e estados falidos, arruinando a vida de milhões. As consequências dessas ações ainda são sentidas hoje.
O padrão se repete em intervenções recentes. O presidente dos EUA ameaçou ação militar contra o México e a Colômbia, e considerou anexar a Groenlândia. Houve também a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Uma nova Guerra Fria?
A lógica de intervenção dos EUA, com o uso da força para impor um comportamento desejado, é reminiscente dos anos 1950 e 1960. Críticos apontam um duplo padrão, questionando por que as ações não se dirigem a governos de extrema-direita, como Israel ou Rússia.
Na Indonésia, 60 anos após os massacres, a memória permanece distorcida. Não houve pedido formal de desculpas pelo Estado, nem julgamentos criminais ou memoriais oficiais para as vítimas. O comunismo continua estigmatizado e proibido.
Sem responsabilização na Indonésia
O ex-ditador Suharto moldou a percepção pública do passado, influenciando museus, educação e cultura. Em 2025, ele foi declarado herói nacional por seu aliado, o atual presidente Prabowo Subianto.
A classificação dos massacres de 1965-66 como “genocídio” é contestada. Embora alguns argumentem que a perseguição sistemática de um grupo se enquadre na definição, nenhum governo nacional o reconheceu oficialmente. A Convenção da ONU sobre Genocídio define atos cometidos com a intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, mas na Indonésia, o grupo visado era principalmente político.
Grupos da sociedade civil na Indonésia continuam a preservar a memória das vítimas através de arquivos digitais e memoriais informais. Famílias de sobreviventes organizam protestos semanais exigindo responsabilização e reconhecimento.

Fonte: Dw