Keytruda: Acesso a medicamento oncológico expõe desigualdade global

Investigação revela como o medicamento Keytruda da Merck expõe a desigualdade global no acesso a tratamentos oncológicos devido a preços, patentes e regulamentações.

Uma investigação internacional de um ano sobre um dos medicamentos contra o câncer mais importantes do mundo revela como um avanço médico se tornou uma linha de falha na saúde global. O estudo expõe como sistemas de precificação, proteções de patente e estruturas regulatórias determinam quem tem acesso a tratamentos que salvam vidas e quem não tem.

O projeto, coordenado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) com a Deutsche Welle e 46 parceiros de mídia, reuniu 124 jornalistas em 37 países. Com base em centenas de entrevistas com oncologistas, pacientes e suas famílias, advogados, reguladores, farmacêuticos e fontes da indústria farmacêutica, além de dados exclusivos de preços e análises de patentes, o trabalho examina como o medicamento contra o câncer Keytruda da Merck se tornou um marco terapêutico e um símbolo de acesso desigual.

Um medicamento que mudou o tratamento do câncer

Keytruda (pembrolizumab), aprovado pela primeira vez em 2014, pertence a uma classe de medicamentos de imunoterapia que permitem ao sistema imunológico atacar células cancerígenas. Atualmente aprovado para pelo menos 19 tipos de tumores, o medicamento estendeu a sobrevida de milhões de pessoas e, em alguns casos, transformou diagnósticos antes fatais em condições gerenciáveis.

No entanto, também se tornou um dos medicamentos mais vendidos da história farmacêutica. Keytruda gerou US$ 31,7 bilhões em vendas em 2025, quase metade da receita total da Merck. Cerca de 60% dessas vendas vêm dos Estados Unidos. Paralelamente, a empresa destinou quase US$ 75 bilhões em dividendos a acionistas e US$ 43 bilhões em recompras de ações.

A expansão global do Keytruda acelerou acentuadamente nos últimos anos. De 2020 a 2024, as vendas aumentaram 232% na França, 265% no Brasil e 491% no México, segundo dados exclusivos compartilhados com o ICIJ pelo IQVIA Institute for Human Data Science.

Preços, patentes e poder

A investigação descobriu que a Merck utilizou uma combinação de estratégias legais e comerciais para manter seu domínio. Uma das mais significativas é o uso extensivo do sistema de patentes. Os repórteres identificaram pelo menos 1.212 pedidos de patente relacionados ao Keytruda em 53 jurisdições. Embora as patentes principais do medicamento expirem em 2028, patentes subsequentes podem estender a exclusividade de mercado até pelo menos 2042, atrasando alternativas mais baratas por mais de uma década.

Críticos descrevem isso como uma “fortaleza de patentes” projetada para dissuadir a concorrência. A Merck rejeita essa caracterização, afirmando que seus registros refletem inovação contínua, incluindo novos usos, formulações e combinações.

A investigação também aponta para caminhos regulatórios e esforços de lobby que ajudaram a expandir o uso do medicamento, juntamente com relacionamentos financeiros com médicos e grupos de pacientes. Nos Estados Unidos, registros mostram que a Merck fez pagamentos relacionados ao Keytruda a profissionais de saúde totalizando quase US$ 52 milhões entre 2018 e 2024.

Preços extremos, sistemas opacos

Os preços de lista do Keytruda variam amplamente, refletindo sistemas de precificação opacos moldados por descontos e negociações confidenciais. Mesmo onde os preços parecem mais baixos, a acessibilidade é frequentemente pior. Nos Estados Unidos, um paciente com renda mediana pode pagar menos de cinco doses por ano.

Na África do Sul, por outro lado, uma pessoa com renda mediana não consegue pagar nem mesmo uma única dose em um ano, destacando como as diferenças de renda determinam o acesso. Pessoas com renda mediana nos Estados Unidos podem pagar menos Keytruda do que aquelas em alguns países da Europa Ocidental, enquanto o medicamento é ainda menos acessível em países da Europa Oriental de baixa renda.

Na Índia, onde o acesso depende em grande parte de pagamentos do próprio bolso ou de programas de assistência limitados, os custos de tratamento podem exceder a renda anual de um paciente. No Brasil, o alto custo dos medicamentos contra o câncer impulsionou um aumento na litigância, com milhares de ações judiciais nos últimos anos.

A investigação também documentou casos em que o suprimento limitado forçou médicos a tomar decisões de vida ou morte. Em Guatemala, um oncologista descreveu ser forçado a escolher quais pacientes receberiam tratamento. Desde que o Keytruda chegou ao mercado em 2014, o ICIJ encontrou pelo menos 632 casos em que pacientes em 51 países usaram sites de crowdfunding para arrecadar dinheiro para tratamentos.

Turquia: Política de preços, lacunas de reembolso e litígios

A Turquia ilustra como a política de preços, as regras de reembolso e os processos judiciais se interligam no acesso a medicamentos oncológicos de alto custo. Na Turquia, os preços dos medicamentos são calculados com base em uma taxa de câmbio fixa em euros definida pelo governo. O medicamento é administrado em duas doses a cada três semanas, elevando o custo de um ciclo de tratamento único a um valor significativo em relação ao salário mínimo líquido.

Por anos, o Keytruda ficou fora do sistema de reembolso da Instituição de Segurança Social (SSI), levando os pacientes a buscar acesso por meio de ações judiciais. O medicamento entrou no reembolso em julho de 2025 para seis indicações, mas restrições de elegibilidade e usos off-label continuam a gerar disputas. Uma análise de 50 processos judiciais na Turquia mostra como os processos legais se tornaram um fator definidor no acesso, com pacientes morrendo enquanto os processos ainda estavam em andamento.

Debates sobre dosagem e custos crescentes

A investigação também levanta questões sobre como o medicamento é prescrito. Alguns pesquisadores argumentam que o Keytruda é frequentemente administrado em doses mais altas do que o necessário. A Organização Mundial da Saúde estima que a mudança para dosagem baseada em peso para pacientes com câncer de pulmão poderia economizar cerca de US$ 5 bilhões globalmente ao longo de 15 anos. Hospitais em vários países começaram a testar abordagens de doses mais baixas, com resultados iniciais sugerindo eficácia semelhante.

A Merck sustenta que suas recomendações de dosagem são baseadas em evidências clínicas extensas e aprovações regulatórias.

Merck: Preços refletem valor

Em resposta ao ICIJ, a Merck defendeu sua estratégia de precificação, afirmando que o preço do Keytruda “reflete seu valor para pacientes e sistemas de saúde”. A empresa também disse que o acesso a medicamentos é “multifatorial”, dependendo dos sistemas de saúde, políticas de reembolso e infraestrutura, não apenas do preço.

A Merck apontou para fatores sistêmicos mais amplos, incluindo seguradoras e intermediários, como os principais impulsionadores de altos custos, especialmente nos EUA. A empresa reconheceu “pressões políticas e de negócios crescentes” sobre preços e acesso, mas disse que está trabalhando para tornar os cuidados de saúde mais “acessíveis, eficientes, equitativos e sustentáveis”.

Um sistema global sob pressão

A investigação conclui que as práticas da Merck não são únicas, mas refletem dinâmicas mais amplas na indústria farmacêutica, onde proteções de patente, estratégias de precificação e estruturas regulatórias frequentemente favorecem os fabricantes. Para os pacientes, as consequências são imediatas. O acesso a um tratamento que prolonga a vida muitas vezes depende não apenas da necessidade médica, mas da geografia, da renda e da capacidade de navegar por sistemas legais e financeiros complexos.

Para Nasır Nesanır, presidente do ramo de saúde pública da Associação Médica Turca, essas disparidades apontam para questões estruturais mais profundas. Ele questiona se a inovação médica deve ser considerada um bem comum da humanidade ou um ativo comercial sob proteção de patente que aprofunda a desigualdade global. O resultado é uma profunda divisão global, onde um medicamento inovador pode significar sobrevivência para alguns e permanecer fora de alcance para muitos outros.

Fonte: Dw

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