Brasil preso em círculo vicioso de dívida, juros e baixo crescimento

O Brasil enfrenta um ciclo vicioso de dívida alta, juros elevados e crescimento limitado. Entenda os fatores e a necessidade de reformas fiscais.

A análise fiscal brasileira muitas vezes se limita ao resultado primário anual, negligenciando a dinâmica intrínseca entre juros, crescimento e dívida pública, e como as expectativas futuras impactam a política monetária e os prêmios de risco.

Economias podem se manter em dois cenários de equilíbrio: um favorável, caracterizado por juros baixos e inflação controlada, e outro desfavorável, com juros elevados que limitam a margem de manobra da política monetária e aumentam a fragilidade a choques.

O cenário brasileiro aponta para o desfavorável. Com juros reais em patamares elevados, a estabilização da dívida pública exigiria superávits primários de difícil alcance. Simulações indicam que, para manter um crescimento de 2% com os atuais juros reais, o superávit primário necessário ultrapassaria 5% do PIB, um objetivo considerado inatingível.

Esforço fiscal elevado é necessário

Mesmo em um cenário de juros neutros, o ajuste fiscal demandaria cerca de 3% do PIB, o que implicaria reformas fiscais profundas. A rigidez orçamentária no Brasil agrava essa situação, com mais de 90% das despesas primárias sendo de caráter obrigatório. A Previdência Social (INSS) consome 43% desse total, despesas com pessoal representam 17%, e programas sociais como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) somam 15%.

Complexidade para conter gastos

Alterar essa estrutura de gastos é um processo complexo, que requer aprovação de leis e emendas constitucionais com efeitos de longo prazo. Assim, grandes cortes de despesas obrigatórias não são esperados para o curto e médio prazo, como até 2027.

Expectativas moldam sustentabilidade da dívida

O risco fiscal está intrinsecamente ligado às expectativas sobre a trajetória futura da dívida pública e à credibilidade das regras fiscais em vigor. Torna-se crucial a adoção de medidas estruturais para conter o avanço dos gastos obrigatórios e reformular o arcabouço fiscal, conferindo-lhe factibilidade e credibilidade.

A experiência com o teto de gastos, estabelecido pela Emenda Constitucional 95/2016, ilustra essa dinâmica. Apesar de suas limitações, ao melhorar as expectativas fiscais, o teto contribuiu para uma redução significativa da taxa Selic, mesmo sem a implementação de medidas estruturais para conter despesas obrigatórias.

Sem uma mudança substancial nas expectativas quanto à sustentabilidade da dívida pública, o Brasil continuará preso a um ciclo de juros elevados, crescimento econômico limitado e maior vulnerabilidade macroeconômica.

Fonte: Estadão

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