A nova geração de medicamentos para obesidade, como Wegovy e Zepbound, desenvolvidos por farmacêuticas como Novo Nordisk e Eli Lilly, está prestes a enfrentar seu primeiro grande desafio econômico. Apesar do sucesso inicial e de vendas expressivas, a sustentabilidade da demanda em um cenário de aperto orçamentário para os consumidores ainda é uma incógnita.
Apesar de um início promissor, com a versão oral do Wegovy registrando mais de 600.000 prescrições em dois meses, a incerteza reside na fidelidade dos consumidores a esses tratamentos caros em tempos de desaceleração econômica. Uma piora no ciclo econômico pode agravar uma guerra de preços já existente, impactando as margens das farmacêuticas.
O universo GLP-1 e seu potencial de mercado
Eli Lilly e Novo Nordisk lideram o mercado de medicamentos GLP-1, que engloba tratamentos para diabetes e perda de peso. As previsões indicam que essas categorias gerarão mais de US$ 100 bilhões em receita neste ano, com projeções de crescimento para US$ 116 bilhões até 2030. O foco está na expansão para novas formulações, incluindo pílulas orais.
Desafios de demanda e custo para o consumidor
Diferentemente de outros medicamentos, os tratamentos para emagrecimento têm se tornado um fenômeno de consumo direto, com pacientes arcando com custos significativos. O preço mensal pode consumir quase um quinto da renda bruta média nos Estados Unidos e cerca de 10% no Reino Unido, o que levanta preocupações sobre a sustentabilidade da demanda em caso de aumento do desemprego ou retração do consumo.
Analistas já revisam para baixo as projeções de crescimento do consumo nos EUA, citando o encarecimento do petróleo e sinais de fraqueza econômica. Este cenário pode representar o primeiro grande teste de estresse para esses medicamentos, diferentemente de 2022, quando os consumidores ainda dispunham de poupança e os tratamentos estavam em fase inicial.
Prioridades de gastos e alternativas mais baratas
A questão central é se os usuários de GLP-1 priorizarão o custo desses tratamentos em detrimento de outras despesas. Embora muitos usuários sejam relativamente abastados, o custo já se mostra um obstáculo, sendo um dos principais motivos para o abandono do tratamento, juntamente com efeitos colaterais. Mais da metade dos pacientes desiste em até um ano, especialmente quando o gasto mensal ultrapassa US$ 500.
A concorrência e a busca por alternativas mais acessíveis também pressionam os preços. Pacientes podem migrar para formulações orais mais baratas ou buscar versões genéricas e não regulamentadas online, com custos inferiores a US$ 130 mensais. As próprias farmacêuticas já buscam reduzir preços para manter a participação de mercado.
Perspectivas de longo prazo e patentes
A longo prazo, fabricantes como Novo Nordisk enfrentam a expiração de patentes, como a do Ozempic e Wegovy em 2031 nos EUA, o que pode levar a uma queda drástica de preços e receita. Para manter o faturamento, seria necessário um aumento massivo no número de pacientes, o que parece irrealista dado o percentual atual de usuários.
Investidores já reagem às incertezas, com quedas nas ações de empresas como Eli Lilly e Novo Nordisk. A concorrência acirrada e a expectativa de entrada de novos players no mercado, somadas a um possível impacto negativo no consumo de curto prazo, sinalizam um cenário de crescimento mais lento para o setor.
Fonte: Cincodias