A estudante Isabelle Lemos, 17 anos, moradora da Gardênia Azul, comunidade na zona sudoeste do Rio de Janeiro, foi aprovada em cinco universidades de prestígio nos Estados Unidos: Wesleyan, Notre Dame, Dartmouth College, Universidade de Rochester e Stanford. Ela optou por cursar engenharia aeroespacial em Stanford a partir de setembro.





A conquista de Isabelle desafia estatísticas de origem e renda. Com a mãe, Miriam de Oliveira, que trabalhava em dois empregos, a jovem aprendeu que o conhecimento seria seu principal motor. A mãe foi seu suporte emocional, incentivando-a a manter a saúde e a nunca desistir.
Isabelle frequentou o ensino público do 1º ao 9º ano. Apesar dos recursos limitados, a família priorizou cursos de inglês desde os seis anos, o que permitiu à estudante acessar conteúdos de ciência e tecnologia, majoritariamente em inglês.
A paixão pela ciência, iniciada com livros infantis sobre estrelas, ganhou maturidade técnica a partir do 7º ano, quando Isabelle integrou o projeto do instituto Ismart. O programa possibilitou que ela frequentasse laboratórios de física e química em um colégio particular, transformando curiosidade em vocação.
No ensino médio, Isabelle fundou o grêmio estudantil de sua escola para ampliar o diálogo entre alunos e diretoria. No laboratório, pesquisou sobre exploração espacial e o problema do lixo orbital, decidindo criar o “Hive”, um protótipo de satélite para captura de detritos espaciais.
O protótipo amador foi desenvolvido de forma independente, com suporte técnico de especialistas. A partir dele, Isabelle aprendeu sobre estruturação de motores e radiação. Ela também buscou unir ciência e impacto social.
Durante um programa de verão na Universidade Harvard, com bolsa integral, ela trocou o curso de astrofísica por “matemática e justiça social”. Lá, desenvolveu um modelo matemático para analisar o racismo em operações policiais no Brasil, motivada por sua vivência em uma favela.
A participação de Isabelle no processo de admissão nas universidades dos EUA contou com o apoio do Prep Program, iniciativa da Fundação Estudar. O programa ofereceu mentoria e preparação gratuita, incluindo suporte na preparação para o SAT e nas redações pessoais.
O sonho inicial da estudante era a Universidade de Princeton, devido ao foco da instituição em responsabilidade pública. A resposta negativa levou a um momento de amadurecimento. “Eu recebi o ‘não’ de Princeton, mas entendi que cada universidade busca um perfil. O importante foi saber contar a minha história de um jeito diferente, manter a minha autenticidade e mostrar o quanto eu cresci, o meu ‘delta’ da minha jornada”, afirma.
A escolha por Stanford se revelou o destino ideal para seu perfil interdisciplinar. Com a viagem à Califórnia marcada para o segundo semestre, a futura engenheira aeroespacial dedica os últimos meses no Rio de Janeiro a organizar projetos que pretende levar na bagagem. Isabelle planeja seguir pesquisando formas de democratizar o acesso à tecnologia e à ciência de ponta para outros jovens que, como ela, olham para o céu de uma comunidade.
Fonte: UOL