O índice cheio do CPI dos Estados Unidos registrou alta de 0,9% em março, totalizando 3,3% em 12 meses, impulsionado pelo choque do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio. Essa variação mensal é a maior desde 2022 e a anualizada, a maior desde abril de 2024.
Economistas apontam que a escalada inflacionária é majoritariamente atribuída aos preços de energia. Em contrapartida, os núcleos de inflação, que excluem energia e alimentos, apresentaram surpresas positivas, especialmente em serviços, com desaceleração na margem. O núcleo do CPI registrou alta de 0,2%.
Essa dinâmica reforça a postura cautelosa do Federal Reserve (Fed) em suas próximas reuniões de política monetária. No entanto, a tendência de arrefecimento nos núcleos não descarta a possibilidade de retomada nos cortes de juros no segundo semestre, caso as tensões militares diminuam e o choque de preços se mostre transitório.
Núcleos de inflação desaceleram
A economista Andressa Durão, do ASA, destaca que o CPI de março veio em linha com o consenso de mercado, refletindo o impacto da guerra no Irã nos preços de energia. Ela ressalta que o núcleo da inflação, que exclui as variações de energia e alimentos, veio abaixo do esperado, com desaceleração na margem. Houve nova surpresa baixista na inflação de bens e também nos serviços.
A visão do ASA para a política monetária do Fed permanece com a taxa de juros estável ao longo do ano, diante do aumento dos riscos inflacionários. Contudo, há expectativas de um fim iminente do conflito ou de um acordo que permita a liberação do fluxo de petróleo.
Impacto do petróleo e cautela do Fed
André Valério, economista sênior do Inter, também enfatiza o avanço de 10,9% nos custos de energia em março, com a gasolina registrando alta de 21,2%. Ele pondera que o núcleo do CPI, com alta de 0,2%, indica que o principal fator para o aumento mensal foi o choque do petróleo. Custos de serviços, excluindo energia, também apresentaram alta de apenas 0,2%.
Para Valério, o resultado de março, isoladamente, não altera a perspectiva para a política monetária americana. A aceleração da inflação, combinada com um payroll melhor que o esperado, intensifica a cautela do Fed. Ele avalia que, com o cessar-fogo, o impacto inflacionário sustentado diminui, permitindo uma normalização mais rápida, condicionada ao mercado de trabalho e ao preço do barril de petróleo.
Perspectivas para o segundo semestre
Mesmo com o fim do conflito, a normalização na oferta de petróleo demandará tempo, mantendo os preços pressionados. O Fed não deve alterar a taxa de juros antes da reunião de junho, mas há espaço para a retomada do ciclo de cortes a partir do segundo semestre, com a inflação subjacente americana indicando bom comportamento, mesmo com o choque do petróleo.
Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, avalia que os números do CPI de março indicam que, apesar do choque externo nas commodities, a inflação permanece relativamente controlada. Setores como cuidados médicos e veículos usados mostram sinais de deflação.
O valor associado ao núcleo pode levar o Fed a dar menos relevância ao pico causado pela variação de preços de energia, mantendo o foco na trajetória de longo prazo. O mercado interpretou positivamente o resultado, com os índices futuros das bolsas americanas operando em leve alta.
Fonte: Infomoney