Março apresentou desafios para fundos multimercado, com a guerra entre Estados Unidos e Irã impactando posições. No entanto, algumas carteiras com estratégia macroeconômica conseguiram manter ganhos anuais e se destacar na categoria.
Um levantamento indica que 80 carteiras multimercado macro, com patrimônio acima de R$ 100 milhões e excluindo crédito privado, registraram ganhos em 2026. Entre os dez maiores rendimentos do ano, destacam-se fundos de menor patrimônio, mas o fundo Verde, um dos maiores do mercado, manteve ganhos e superou o CDI.
O cenário foi marcado pela disparada de juros e queda das bolsas no Brasil e no exterior, além da valorização do dólar, que resultou em perdas de até 13% no mês para alguns gestores. O Índice de Hedge Funds da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (IHFA) recuou 3,42% em março, a maior correção mensal desde março de 2020.
Mercado se recupera e busca oportunidades
A recuperação dos mercados no fim de março, impulsionada por sinais de um possível acordo de paz no Irã, auxiliou muitas carteiras. O fundo Parcitas Hedge, por exemplo, fechou março com perda de 2,07%, mas acumula ganho de 7,10% no ano. A estratégia incluiu balanceamento entre bolsas local e americana, com maior alocação no Brasil gerando alfa.
O fundo também manteve posições em juros no Brasil, mitigando perdas com a alta das taxas. Atualmente, o Parcitas Hedge está mais investido em bolsa, com alocação equilibrada entre Brasil e mercados desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, visando teses de longo prazo.
Desempenho anual e cenário futuro
O mercado brasileiro apresentou bom desempenho no acumulado do ano, com o Ibovespa em alta superior a 16% e o CDI com retorno de 3,41%, enquanto o S&P 500 registra queda. Fundos com melhor performance no ano devem ter aumentado a exposição ao Brasil, com bolsa e juros curtos, e reduzido posições no exterior.
O cenário futuro indica alta dispersão entre classes e mercados, com volatilidade como fator de atenção. O Brasil mantém desempenho relativo favorável, o que favorece gestores ativos em juros, bolsa e arbitragem. Multimercados continuam sendo ferramenta de diversificação, mas exigem seleção criteriosa.
O IHFA apresenta retorno praticamente nulo no ano, evidenciando a dispersão entre gestores. Apenas 26% dos fundos que compõem o índice superaram o CDI no ano, reforçando a importância do processo de seleção e curadoria.
Análise do impacto da guerra e volatilidade
Março foi um mês de ruptura para a indústria de multimercados, com o conflito no Irã impactando severamente os ativos de risco. A perda mensal média da indústria ficou próxima de -2,5%, uma das piores da história da classe no Brasil.
O aumento da volatilidade global, embora tenha prejudicado gestores em março, cria oportunidades de entrada e realinhamento de posições com prêmios mais atrativos. A correlação entre fundos multimercados e índices de juros e bolsa aumentou, comprometendo temporariamente a diversificação.
A classe de multimercados pode ser uma boa opção para investidores com horizonte de dois a três anos e tolerância à volatilidade. O ambiente atual, com prêmios de risco mais abertos após o choque, pode representar um ponto de entrada interessante.
Multimercados seguem como opção atrativa para retorno absoluto em ambiente de alta volatilidade, com capacidade de ajuste rápido aos cenários. Historicamente, após quedas fortes, a categoria costuma entregar retornos acima do CDI nos meses seguintes.
Para o investidor de longo prazo, com horizonte de pelo menos três a cinco anos e alocação adequada ao perfil de risco, os multimercados continuam fazendo sentido. A seleção rigorosa de gestores é crucial para obter consistência de entregas.
Gestão ativa e seletividade em cenário desafiador
A capacidade de adaptação dos gestores foi o diferencial neste ano. O ambiente continua desafiador, com inflação pressionada, bancos centrais cautelosos e incerteza geopolítica, o que tende a manter a volatilidade alta em abril.
A taxa de juros em 14,75% aumenta o custo de oportunidade para sair da renda fixa, tornando o multimercado uma escolha que exige maior seletividade. Avaliar o desempenho no mês ou no ano é uma janela muito curta; a classe é diversa e ampla.
Multimercados deveriam atuar como hedge, mas muitos apresentam correlação com ações e crédito privado. A diversificação que a classe deveria oferecer nem sempre se concretiza, exigindo análise crítica.
Desempenho de grandes fundos e perspectivas
Entre os dez fundos multimercados macro com maior patrimônio, alguns mantiveram resultado positivo no ano, como Verde, Legacy, Absolute e Opportunity. O fundo K10 da Kapitalo Investimentos readequou o portfólio, com visão de ganhos em juros e aposta em preços mais altos do petróleo e diesel.
A gestora acredita que a destruição da infraestrutura de produção no Irã e outros países está mal precificada, com potencial de gerar escassez e desorganização nos mercados de petróleo e gás. A aposta em petróleo e diesel para os próximos meses visa capturar uma eventual mudança de patamar de preços.
Outras gestoras apostam na continuidade da alta do petróleo, mirando queda de moedas e alta de juros em países asiáticos. Há também atenção aos riscos da crise de crédito privado nos Estados Unidos e suas implicações para a política de juros do Federal Reserve.
Fonte: Infomoney