Crises energéticas historicamente alteram hábitos de consumo automotivo. A crise do petróleo de 1973 incentivou a troca de veículos de alto consumo por modelos mais eficientes. Atualmente, a escassez extrema de suprimento e o aumento dos preços da gasolina levam consumidores e autoridades a reconsiderar os veículos elétricos. Mesmo com uma eventual queda nos preços do petróleo, grandes fabricantes de carros elétricos devem se beneficiar.
A Agência Internacional de Energia (AIE) classificou o recente conflito como a “maior interrupção do fornecimento da história”, com o bloqueio do Estreito de Ormuz impactando uma parcela significativa do comércio mundial de petróleo. Muitos países apresentavam reservas de petróleo alarmantemente baixas, levando 28 nações a implementar medidas de emergência para conservar suprimentos.
Consumidores Reagem a Custos e Melhorias Tecnológicas
A sensibilidade dos motoristas ao custo relativo entre motores a combustão e energia de baterias é evidente. Dados da AIE e LSEG indicam que as vendas de veículos elétricos puros e híbridos cresceram mais em anos de alta nos preços do petróleo, mesmo quando os elétricos ainda eram mais caros. Desde a última vez que o petróleo superou os US$ 100 o barril em 2022, os veículos elétricos melhoraram significativamente, com o custo das baterias reduzido pela metade, segundo a UBS.
Essa dinâmica tornou as opções elétricas mais rentáveis em mercados como China e Europa. No Reino Unido, o custo total de propriedade de um Renault 5 Techno+ elétrico por quatro anos é consideravelmente inferior ao de um Volkswagen Tiguan diesel, conforme estimativas do HSBC.
Demanda Crescente e Infraestrutura em Expansão
A demanda por veículos elétricos tem se mostrado robusta. Concessionárias na Ásia registram um volume de pedidos expressivo, e empréstimos para veículos elétricos dobraram na Austrália. Na França, as matrículas de Tesla triplicaram em março, e o Reino Unido atingiu um recorde mensal de vendas de elétricos a bateria.
A infraestrutura de carregamento global dobrou desde 2022, segundo a AIE. Sistemas de carregamento rápido, como os da BYD, e baterias de maior duração contribuem para mitigar a ansiedade dos motoristas quanto à autonomia.
Expansão Chinesa e Desafios para Fabricantes Tradicionais
Veículos elétricos fabricados na China estão ganhando espaço no mercado global. BYD e Geely já representam uma parcela considerável das vendas mundiais. Com a desaceleração em seu mercado doméstico, essas empresas intensificam seus esforços de exportação, com metas ambiciosas para 2026.
Fabricantes internacionais como Ford, General Motors e Stellantis enfrentam desafios após amortizarem investimentos em veículos elétricos e observarem uma estagnação na demanda nos EUA. Apesar disso, mantêm modelos elétricos em suas linhas e buscam reduzir custos, com projetos para veículos mais acessíveis.
Política e Logística: Catalisadores e Obstáculos
A política também atua como um impulsionador. O embargo petrolífero árabe de 1973 inspirou normas de economia de combustível nos EUA, e o aumento do preço do petróleo em 2008 levou a China a apoiar os carros elétricos. Atualmente, Camboja e Chile implementam medidas para incentivar a eletrificação.
No entanto, fabricantes enfrentam desafios logísticos e de produção. O conflito no Golfo eleva os custos de insumos como alumínio, cobre e lítio, impactando os custos de fabricação de veículos elétricos. Além disso, o aumento dos preços da energia pode alimentar a inflação e reduzir o poder de compra, afetando as vendas gerais de automóveis e a vantagem relativa dos elétricos.
Apesar da volatilidade nos preços do petróleo, o histórico de escassez energética tende a conferir um impulso duradouro aos carros elétricos, moldando o futuro da mobilidade global.
Fonte: Cincodias