Mudanças na diretoria do grupo de defesa Leonardo enviam um sinal preocupante para o rearmamento da Europa. O governo italiano, que detém cerca de um terço deste grupo com faturamento de 33 bilhões de euros, pode substituir Roberto Cingolani como CEO. A possível demissão contrasta com seu histórico de altos rendimentos para acionistas e operações bem-sucedidas.
As trocas de executivos na Itália não são novidade. Roma possui participações em empresas como a energética Eni e o estaleiro Fincantieri, o que contribui para uma rotatividade de altos executivos acima da média, frequentemente envolvida em negociações políticas. Essa prática já resultou em quedas significativas, como a do preço das ações da Enel em 2023, após a demissão de seu CEO.
Despedir Cingolani seria difícil de justificar sob uma ótica comercial ou industrial. Sua nomeação em 2023 foi controversa, pois ele é físico e nunca havia liderado uma empresa de capital aberto ou um grupo de defesa. No entanto, sob sua gestão, Leonardo superou o desempenho do setor, com retornos totais para os acionistas que ultrapassaram os da gigante alemã Rheinmetall. A empresa encerrou 2025 com uma carteira de pedidos recorde de 24 bilhões de euros e um balanço financeiro sólido.
Sob a liderança de Cingolani, a Leonardo realizou diversas operações estratégicas. Entre elas, a aquisição da divisão de defesa da Iveco, uma parceria em satélites com a Thales e a Airbus, e o desenvolvimento do Michelangelo Dome, um sistema europeu contra drones e mísseis. Outras iniciativas, como uma parceria aeronáutica com o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, ainda estão em andamento.
O risco de uma mudança na diretoria é o atraso nesses acordos. A falta de clareza sobre o substituto também gera preocupação. Não está claro se a decisão do governo reflete um desacordo estratégico ou geopolítico, ou se é apenas resultado de barganhas políticas internas. A segunda opção parece mais provável, dada a posição de Giorgia Meloni após a recente derrota em um referendo.
As ações da Leonardo caíram 8% no dia da notícia, resultando em uma perda de quase 3 bilhões de euros em valor de capital. As consequências para o renascimento militar da Europa, impulsionado pela invasão russa da Ucrânia e pela brecha geopolítica com os Estados Unidos, podem ser graves. A lição é que nem mesmo um CEO ambicioso no setor de defesa, com planos de expansão, está imune a interferências políticas internas.
A única notícia positiva para os investidores é que a participação do governo não lhe confere poder ilimitado. Com aproximadamente 30% das ações, Roma provavelmente apresentará a lista principal para o conselho de administração em abril. No passado, investidores institucionais conseguiram exercer influência considerável em assembleias de acionistas de empresas estatais italianas. Meloni poderia evitar uma batalha escolhendo um candidato experiente, como Lorenzo Mariani, atual diretor geral para a Itália do fabricante de mísseis MBDA. Ele é um dos principais candidatos, segundo a Reuters. De qualquer forma, a mensagem geral não é tranquilizadora para o setor de defesa europeu.
Fonte: Cincodias